segunda-feira, 31 de agosto de 2020

RESENHA

 

SANTOS, José Luiz dos. O que é Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

 

            O livro “O que é Cultura” publicado pela Editora Brasiliense em 1983, escrito por José Luiz dos Santos apresenta a definição do que é Cultura, bem como sua relação com a história da humanidade. O livro apresenta quatro partes principais: cultura e diversidade, o que se entende por cultura, cultura em nossa sociedade, cultura e relações de poder.

            Na primeira parte do livro, o autor discute acerca da diversidade de fatores que se relacionam com a cultura, inclusive fala da cultura como tudo que caracteriza a população humana. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre os modos de organizar a vida social, de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los, de conceber a realidade e expressá-la. A história registra as inúmeras transformações pelas quais passa a cultura. Ademais, apresenta as duas possibilidades básicas que se relacionam as culturas entre si. Desse modo, na primeira possibilidade, pensa-se em hierarquizar as culturas segundo algum critério, ou seja, usando o critério da capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada que a outra. Na segunda possibilidade, nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização, pois cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e para uma tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios da outra. Logo, acredita-se que nenhuma cultura é superior ou inferior a outra em termos de importância ou desenvolvimento.

            É essencial que se considere a diversidade cultural interna à sociedade para compreender melhor o país em que se vive. Essa diversidade não é só feita de ideias, mas também com as maneiras de atuar na vida social. Ela também se constitui de maneiras diferentes de viver, cujas razões podem ser estudadas, contribuindo para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Também no estudo de uma sociedade particular não faz sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes, pois elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. Portanto, não há motivos para fazer relativizações.

            O autor, na segunda parte do livro tem a intenção de trazer e discutir o que se entende por cultura, uma vez que ao termo entende-se muita coisa e existem muitos sentidos. O próprio autor admite que tem falado de cultura de maneira mais genérica, preocupado com tudo que caracteriza a população humana. Cultura está muito associada a estudo, educação, formação escolar. Refere-se também a manifestações artísticas, como o teatro, a música, a pintura, a escultura. Outras vezes, ela é identificada com os meios de comunicação de massa, tais como o rádio, o cinema e a televisão. Também às festas e cerimônias tradicionais, às lendas e crenças de um povo, ou a seu modo de vestir, à sua comida, seu idioma. Além de tudo isso, são apresentadas duas concepções básicas de cultura. A primeira remete a todos os aspectos de uma realidade social; a segunda refere-se mais especificamente ao conhecimento, às ideias e crenças de um povo.

            Dessa forma, as reflexões sobre assuntos relacionados à cultura são encontrados em autores da Grécia, Roma e China antigas, contudo, as preocupações sistemáticas são mais recentes. Desenvolveram-se a partir do século XVIII, na Alemanha, e a cultura vinha com a preocupação de pensadores em interpretar a história humana, compreender as particularidades das crenças e costumes e entender o desenvolvimento dos povos nas condições materiais em que se desenvolviam. O significado original de cultura está ligado às atividades agrícolas. Vem do verbo latino colere que quer dizer cultivar, porém pensadores romanos antigos ampliaram esse significado ao refinamento pessoal que está na expressão cultura da alma. Já no século XIX a preocupação com a cultura se generalizou como uma questão científica. Logo, a cultura, nessa época, esteve associada a dois aspectos principais. Primeiro, que se tornou dominante uma visão laica, quer dizer, não religiosa, do mundo social e da vida humana. Em segundo lugar, a moderna preocupação com a cultura nasceu associada tanto com necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política.

            É possível perceber que, no que se refere à cultura, a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante do Ocidente, entendendo-se aí a cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. Nesse sentido, cultura pode por um lado referir-se à alta cultura, à cultura dominante, e por outro, a qualquer cultura. Por conseguinte, a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica.

            Na parte III do livro, o autor afirma que as sociedades contemporâneas possuem uma grande diversificação interna, logo, se a cultura é dimensão do processo social, ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. No âmbito diversificado da cultura, está imerso o erudito e o popular. A cultura erudita de acesso da classe dominante, é uma cultura mais refinada. Já a cultura popular, da maior parte da população era e ainda é considerada inferior, atrasada.

             Em se tratando do popular na cultura é necessário entender, então, o que faz parte do popular. Em certo sentido, povo pode ser entendido como toda a população de um país, em outro, como a população mais pobre, em outro, ainda, como toda a população trabalhadora, incluindo nela os pequenos proprietários rurais e urbanos. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população, mas nem sempre é esse o caso. Assim, falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população, que seja característico dela, que seja mesmo um patrimônio seu.

            Outro aspecto a ser considerado ao se tratar da temática em curso é a cultura de massa. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão do mundo das diversificadas populações que formam a sociedade ultrapassando barreiras de classe social e facilitando, por essas razões o controle das massas. Tais instrumentos seriam principalmente o rádio, a televisão, a imprensa, o cinema e a internet. Ademais, pode-se mencionar também a cultura nacional, uma dimensão dinâmica e viva, importante nos processos internos dessa sociedade, importante para entender as relações internacionais.

            Por fim, a quarta e última parte do livro discute a cultura e as relações de poder. A cultura está associada com as formas de dominação na sociedade e continua sendo instrumento de conhecimento ligada ao progresso social. O relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e de relação entre os povos e nações, ou seja, a opressão, também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. Da mesma forma, a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque e a discussão sobre ela pode conduzir falsas polarizações, como no caso da oposição erudito e popular. Portanto, a cultura é uma produção coletiva, mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos, pois as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas.

           

           

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

RESENHA

 

PESSOA, Jadir de Morais. Cultura Popular: gestos de ensinar e aprender. Petrópolis / RJ: Vozes, 2018.

 

            No livro “Cultura Popular: Gestos de ensinar e aprender” publicado pela Editora Vozes em 2018, escrito por Jadir de Morais Pessoa – Professor aposentado da Universidade Federal de Goiás, membro de uma Folia de Reis goiana e da Comissão Goiana de Folclore e sócio titular no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. O autor propõe uma excelente reflexão com referência e a partir do lugar de suas vivências acerca da cultura e da cultura popular. O autor adverte-nos para que prestemos atenção sobre a concepção deste saber, pois é um campo de intensa disputa teórica e comercial midiática. O livro, composto de sete capítulos, apresenta discussões teóricas e práticas sobre a temática das cinco regiões brasileiras, inclusive suas contribuições para a educação escolar e externa à escola, que através de gestos e significados revelam o processo de ensino – aprendizagem, possível de revitalização e sentido.

            O autor inicia suas reflexões no capítulo I trazendo à tona a cultura como um campo de disputas, e que ela é bem vista tão somente quando equivale à produção de bens e serviços rentáveis. Dessa forma, a lucratividade é o que importa e o alto consumo dos bens produzidos não combina com a uniformização. É por isso que a diversidade cultural tornou-se a nova crença do terceiro milênio. Logo, a propósito da extração de maior lucratividade, as empresas cunharam o termo obsolescência programada. Embora a ideia do descartável vem desde as últimas décadas do século XIX. Paralelamente a isso, tornou-se igualmente fácil acostumar-se com a ideia de que também o gosto, a qualidade musical e os estilos de dança não tem que durar a vida inteira. Assim, um sucesso musical não precisa embalar sonhos de duas gerações.

            Falar de cultura popular nesse contexto não é tarefa fácil, pois o que se percebe nos megaeventos (Festa juninas nordestinas, Festival de bois de Parintins, Festa de peão boiadeiro de Barretos etc.) é que os interesses econômicos e políticos são muito mais reais e nesse caso, a característica das “tradições inventadas” se referem a um passado histórico real; mas essa inculcação real ao passado se dá apenas artificialmente.

            Diante dos pressupostos mencionados, ainda é possível falar de cultura numa perspectiva autêntica, especialmente no âmbito da cultura popular. Os estudiosos dessa temática são unânimes em dizer que cultura popular é folclore e se há diferenças entre os dois termos, são mínimas, podendo chegar a dizer que o termo folclore refere-se à tradição, portanto, é mais conservador; enquanto o termo cultura popular é mais dinâmico e, por conseguinte, dá vazão a reflexões mais progressistas.

            No capítulo II, o autor continua as discussões sobre o pressuposto de que a vida cria a cultura e a cultura cria a vida. Nesse sentido, são nas realizações das atividades do dia-a-dia que a cultura se manifesta e é nesses fazeres que os grupos humanos imprimem valores e significados. Entre essas ações dos sujeitos e dos grupos têm-se a cultura como recurso, ou seja, que à cultura agora, cabem tarefas que anteriormente eram restritas às áreas da economia e da prática. Os festejos populares do mês de junho, no nordeste, que são transformados pelo comércio em interesses políticos e econômicos em grandes empreendimentos. Nesse caso utilizam o termo campo como um sistema de relações entre os diversos agentes e instituições, tais como: poder público, empresas patrocinadoras, empresas promotoras de eventos, artistas, canais de televisão, emissoras de rádio etc.

            Vale ressaltar que um dos difusores da cultura e cultura popular no Brasil, por volta do século XIX e parte do século XX foi a criação dos almanaques. Nessa época, as deficiências em termos de comunicação eram grandes, bem como a mobilidade das massas pobres, de escolarização, mesmo a mais elementar. Então, o almanaque, caía perfeitamente nesse solo de carecimentos e desejos, principalmente porque era distribuído gratuitamente.

            Os conflitos e tensões políticas e sociais dos anos 1960 fizeram emergir uma concepção muito especial de cultura. A cultura passou a ser um tema disputado por intelectuais, professores, estudantes, artistas; como algo que deveria ser visto a serviço do povo e deveria também ser instrumento de consciência revolucionária. Ainda, como exercício de complementaridade, a cultura passava a ser entendida sobre os conceitos das ciências do social e o hábitus. Sobre as ciências do social, o mais importante é penetrar fundo no “gênio da cultura”, ou seja, atitudes fundamentais que controlam o comportamento individual e em grupo. Na ideia de hábitus, proposta por Bordieu, a caracterização mais clássica são estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes. Além disso, no cenário atual, podemos falar da cultura mundo, ou seja, o fim da heterogeneidade tradicional da esfera cultural e a universalização da cultura mercantil. De igual modo, quase não existem diferenças nos tipos de cultura, porém o folclore funciona como um núcleo simbólico para expressar um certo tipo de sentimento, de convívio social e de visão de mundo que, ainda quando totalmente reinterpretado e revestido de modernas técnicas de difusão, continua sendo importante, porque remete à memória longa.

            O capítulo III parte do princípio de que a educação é uma ação própria da sociedade, tendo em vista a socialização dos indivíduos e dos grupos e vincula o educar, no sentido de formar indivíduos, e grupos capazes de compreender e interagir com os movimentos todos da vida, dos quais faz parte. Então, a educação compreendida no sentido amplo reforça que em todos os espaços da sociedade acontecem, com indisfarçável intencionalidade, gestos de transmissão de valores diversos. Nesse sentido, a educação, além de ser o veículo que garante a estabilização e continuidade de cultura, ela também é espaço de recriação e de modificação de heranças recebidas afim de promover a criatividade, a originalidade e a iniciativa, no sentido de inovar, de modificar e de aperfeiçoar. Por isso mesmo, a educação considerada também fora do recinto escolar propicia que a literatura no ensino da religiosidade, sentimento de pertença à natureza e solidariedade são valores típicos do mundo camponês e portanto, constituem a cultura popular. Por conseguinte, a cultura popular deve ser pensada como cultura, como conhecimento acumulado sistematizado, interpretativo e explicativo, e não como cultura barbarizada, forma decaída da cultura hegemônica.

            Partindo da ideia de que a educação e a cultura estão imbricadas, Brandão diz que nos fazeres que caracterizam o lugar do homem no mundo da cultura, há uma centralidade da educação, ou seja, todos os gestos que o definem como ser constituinte do mundo da cultura, desde o mais banal como o ancestral polimento da ponta de uma flecha, são essencialmente experiências de ensinar e aprender. Desse modo, Bordieu entende que o motor de nossas ações no mundo – principalmente de ação histórica – não só reside na consciência ou na subjetividade, entretanto, na relação dialética entre ambas. Nesse contexto, a linguagem é intersubjetividade, é relação que se estabelece, em meio a tantas outras relações sociais.

            O capítulo IV tem como horizonte o abrangente painel das regiões brasileiras em que emerge a cultura popular, como expressão direta das relações econômicas, de trabalho e de poder. Em cada região, a produção dos meios de existência é recriada simbolicamente pelo imaginário popular coletivo, produzindo expressões próprias de resistência. Também mostra como a diversidade da cultura popular dialoga com as grandes heranças macro formadoras da cultura brasileira – branco-europeia, negra e indígena – mas ao mesmo tempo está profundamente assentada na ideia de região, fala miúda da vida, de realidades sociais muito localizáveis. Ademais, registros da cultura popular são encontrados: na transmissão oral de saberes e costumes; em escritores regionalistas que trazem para dentro de seus contos, novelas, romances e poesias; nas músicas caipiras ou de outros gêneros com características regionais; nos ritos religiosos populares; na pesquisa etnográfica e no folclore.

            O autor dá bastante ênfase às festas, pois elas expressam com mais intensidade a diversidade da cultura popular. Elas são meios simbólicos essenciais, através dos quais os sentimentos, os saberes, os sentidos, os significados e as sociabilidades inevitáveis da vida de todos os dias são retraduzidos e reditos, solenemente pronunciados entre a prece, o canto, a dança, o cortejo, a romaria, o teatro, a celebração, enfim, vale lembrar também das comidas. Sobre as festas populares, a folia de reis, o carnaval e as festas de junho destacam. Também fazem parte da cultura popular, em várias regiões do Brasil, os contos populares e os causos. Conto popular é quando se está tratando de literatura oral ou quando se trata de folclore. O causo é quando se refere a uma função prática, a formação moral, feita ao pé do fogo, quando anoitece, fustigando a imaginação e aguçando o medo da meninada. Sem esquecer das brincadeiras como criações e também o ofício das parteiras e benzedeiras. Logo, em todas essas manifestações, longe da grande mídia, prevalece uma forma de ensinar e aprender, geralmente no âmbito da família ou da vizinhança; o gesto de quem sabe e faz, diante de quem olha com sede de aprender.

            No capítulo V o autor foca nos saberes e gestos que são propiciados pela cultura popular, ensinamentos estes que acontecem ali mesmo no cotidiano, que são frutos da vida em comunidade e é sempre um coaprendizado. Cada pessoa possui uma fonte original de saber e sensibilidade. Em cada momento de nossas vidas estamos ensinando algo a alguém, ao mesmo tempo em que aprendemos algo com alguém.

            Dessa forma, o aprendizado só acontece se a educação que estiver implícita supor encantamento. As manifestações populares de cultura, mormente as festas populares, o próprio fato cultural já é portador de encantamento. A festa popular é o grande e fecundo momento a nos ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo. Sem o novo, paramos no tempo, mas sem o velho apresentamos ao presente e ao futuro de mãos vazias.

            A título de ilustração, temos as festas populares, em especial as folias de reis, que transbordam encantamento e fascinação; realiza um grande ato educacional que se expressa numa consagrada manifestação estética. Não somente a estética se observa nessas festas, mas também o paladar e o espírito. É verdade que muitas das comidas preparadas para as festas, são receitas que passaram e passam oralmente de mães às filhas. Somando-se aos ensinamentos das festas e culinárias, existem os provérbios, que são uma filosofia de vida, um recurso usado no mundo inteiro, com o objetivo de transmitir experiências às novas gerações.

            O capítulo VI trata-se dos diferentes saberes constituídos nas classes subalternas, ou seja, o espaço de relações e contradições engendradas no mundo do trabalho. A relação da classe dominante com a classe dominada é dialética e não podemos dizer que a primeira tem os mesmos costumes e hábitos, afinidades e interesses, uma história e tradições comuns e iguais ou ao menos parecidos com a segunda classe. O mundo do trabalho se materializa em espaços sociais que compreendem dois fatores antagônicos, que combatem por interesses contrários, a saber, o capital e o trabalho. Logo, as culturas populares são, por definição, culturas de grupos sociais subalternos. Elas são construídas por disseminação. Nessas relações podem ocorrer resistência e submissão e pode acontecer, em alguns casos, da resistência ser alienante e a submissão libertadora.

            No capítulo VII o autor afiança que a cultura popular com seus gestos de ensinar e aprender não tem necessariamente uma relação direta com a educação escolar, mas por outro lado, não há nenhuma impossibilidade de que isso se passe na escola. Também, o fato de desde a primeira metade do século XX a escola ter sido concebida como uma fábrica e os estudantes, a matéria prima. Desse modo, a arte, um dos principais objetos do fazer da cultura popular não teve possibilidade de se inserir como constitutiva do fazer da educação. A ciência era considerada cognitiva, as artes emocionais. O autor complementa que, esta cultura cognitiva, cada vez mais tecnicista, ainda nos acompanha nesse início do século XXI, sendo que o objetivo maior da educação deveria ser outro, o da formação de artistas.

            Nesse sentido, fica evidente que a escola trabalha com as concepções e valores urbanos e dominantes da sociedade capitalista. Em geral, se dá muito mais importância ao exotismo do que ao conhecimento do fato folclórico propriamente dito. A escola exclui de várias formas o capital cultural das crianças e adolescentes das classes populares e os teóricos a vê como espaço privilegiado de reprodução da ideologia dominante. Portanto, a escola, por sua natureza, por sua especialidade como difusora do conhecimento científico, como formadora de comportamentos socialmente pactuados etc., não tem sido, conforme mostra a história, um espaço franqueado ao folclore, aos saberes do povo, à cultura popular.

            Enfim, a obra ora analisada é de suma importância para quem quer entender o valor da cultura popular para o momento presente em que vivemos. São inúmeros os fatores que apresentam uma relação a favor ou contrários à cultura popular. A obsolescência programada, a mercantilização generalizada, o enriquecimento cultural, o sentido desumanizador, resistência e transformação. Ainda esclarece que a cultura popular é folclore e é tão importante como o Português e a Matemática na escola. Admite-se que é difícil manter a originalidade da cultura popular com o avanço da tecnologia, das comunicações, tudo se mistura e perde a originalidade. Por fim, é preciso entender que a cultura popular é uma prática social, é uma forma de ação na cultura, na vida em sociedade e, portanto, não pode ser vista como coisa de uma época já na condição de página virada da história.

           

           

 

 

domingo, 16 de agosto de 2020

RESENHA DO LIVRO: CULTURA E ARTES DO PÓS-HUMANO: DA CULTURA DAS MÍDIAS À CIBERCULTURA

 

SANTAELLA, Lúcia. Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.

 

Por: Belchior Ribeiro Leite

 

            No livro “Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura”, publicado pela Editora Paulus em 2003, escrito por Lúcia Santaella, traz reflexões sobre a cultura de forma geral, os vários tipos de cultura e as transformações que foram ocorrendo em virtude da evolução da tecnologia – tudo transformou-se  numa mistura, ou seja, não há uma fronteira bem definida de um tipo de cultura para outro, melhor dizendo há uma hibridização de culturas. O livro está organizado em quatorze capítulos, no qual a autora inicia falando da cultura e aprofunda passando por conceitos como: mídias, tecnologias, cibercultura, corpo cibernético, artes híbridas, pós-modernidade, semiose do pós-humano, corpo cibernético etc, enfim, como se encontra na realidade pós, e a arte como elemento do complexo mundo da cultura. Assim, em tempos de incerteza, pretende repensar o humano neste alvorecer do vir-a-ser tecnológico do mundo e os meios para esse pensamento vêm da história das novas tecnologias, bem como as nanotecnologias; a filosofia; a psicanálise; a comunicação e semiótica e sobretudo, a arte.

            Para a autora, as definições de cultura são numerosas. Um sinônimo de cultura é tradição, o outro é civilização, mas seus usos se diferenciam ao longo da história. Um conceito popular de cultura é o de refinamento, implicado na habilidade que alguém possui de manipular certos aspectos da nossa civilização que trazem prestígio. Portanto, são duas as concepções de cultura: a antropológica e a humanista. A concepção antropológica é plural e relativista, o mundo está dividido em diversas culturas, cada uma delas valiosas em si mesmo; na cultura humanista, algumas pessoas têm mais culturas que outras e alguns produtos humanos, tais como artes visuais, música, literatura; são mais culturais que outros.

            Cabe ressaltar que, das duas concepções de cultura, derivam os sentidos de cultura que se tornaram correntes: o sentido lato, que descreve todos os aspectos característicos de uma forma particular de vida humana; o sentido estrito é uma província das humanidades, cujo objetivo é interpretar e transmitir às gerações futuras o sistema de valores em função dos quais os participantes em uma forma de vida encontram significado e propósito. Além disso, a autora defende a ideia de que a cultura representa essencialmente as condições morais do indivíduo, enquanto a civilização significa as convenções da sociedade e também, se a cultura é um sistema “simbólico de formas”, então a semiótica é uma ciência da cultura por excelência, pois ela é a ciência universal dos signos e dos símbolos.

            Com o aparecimento explosivo dos meios de comunicação de massa e outros recursos tecnológicos, tornou-se difícil estabelecer distinções claras entre o popular, o erudito e o massivo. Junto a isso, foi aumentando a tendência para os trânsitos e hibridismos dos meios de comunicação entre si, criando redes de complementaridades chamadas cultura das mídias. Nessa perspectiva, é a cultura como um todo que a cultura das mídias tende a colocar em movimento, acelerando o tráfego entre suas múltiplas formas, níveis, setores, tempos e espaços. Tudo na cultura foi virando uma mistura. Nesse sentido, com o surgimento de novas formas de cultura, não levaram o desaparecimento das culturas já existentes, e sim a diluição de suas fronteiras.

            A palavra mídia foi se fixando em função do crescimento acelerado dos meios de comunicação também mediados pelo computador. São exemplos de novas mídias: a internet, os web sites, a multimídia computacional, os jogos eletrônicos, os CD-roms, os DVDs, a realidade virtual. Graças a essas novas e poderosas tecnologias a cultura se tornou globalizada. Também em virtude da digitalização e compreensão dos dados, todo e qualquer tipo de signo pode ser recebido, estocado, tratado e difundido via computador.

            O campo histórico da cultura apresenta seis eras culturais: oral, escrita, impressa, de massa, das mídias e digital. Todas as seis eras coexistem, convivem simultaneamente na contemporaneidade. Quando surge uma nova tecnologia, elas sofrem reajustamentos no papel social em que desempenham, mas continuam presentes. Desse modo, a cibercultura, utilizada como sinônimo de cultura digital dispõe do ciberespaço como ambiente de fluição, repasse e construção de cultura; além do mais, a interface homem-máquina propicia perceber as comunidades virtuais e a inteligência coletiva como consequência da própria cibercultura.

            Observa-se que mais importante que o efeito de fetiche das mídias é deslindar linguagens, os processos sígnicos que habitam, transitam, são difundidos pelas mídias e sem os quais ficam em falta as bases objetivas para se pensar as culturas e as formas de socialização que lhes são próprias. As mídias são somente meios e a mediação primeira não vem delas, mas dos signos, linguagem e pensamento, que elas veiculam. Com efeito, nos novos ambientes comunicacionais têm-se: e-mails, chats, salas e/ou ambientes virtuais, sites e links de informação, jogos etc; bem como as comunidades virtuais. Efetivamente, é através da linguagem que o ser humano se constitui como sujeito e adquire significância cultural. Logo, a cultura digital forma-se múltiplas identidades no sujeito.

            Com a expansão tecnológica que não cessa de avançar, ocorre também o hibridismo no campo das artes, que também podem ser chamados de processos de intersemiose –  território das artes plásticas. Para os fotógrafos, as tecnologias digitais substituíram completamente as tecnologias analógicas – lentes óticas foram substituídas por câmeras digitais e virtuais, filmes por discos, salas escuras por programas de computador.

            A partir da revolução industrial tem-se o fim da exclusividade do artesanato nas artes e o nascimento das artes tecnológicas. A técnica é o saber fazer, a tecnologia avança além dela com o auxílio de dispositivos maquínicos. Na nossa era pós-moderna, todas as artes se confraternizam: desenho, pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalação e todos os seus híbridos. Dos anos 90 para cá estamos vivendo uma nova revolução. Trata-se da revolução digital e da explosão das telecomunicações virtuais.

            A revolução digital a qual estamos vivenciando permite perceber as transformações pelas quais o corpo humano está passando. O corpo humano se tornou problemático e as inquietações sobre uma possível nova antropomorfia tem estado no centro dos questionamentos sobre o que é o ser humano no início do século XXI. Esse corpo, em virtude das simulações com a vida artificial, por meio da tecnologia tem sido chamado de biocibernético. Sendo assim, o estado da arte das invenções e ideias que foram dando forma a esse corpo híbrido entre o orgânico e o maquínico e que culminaram na convicção de que o ser humano já está imerso em uma era pós-biológica, pós-humana. Diante disso, o neologismo ciborg (cib-ernético mais org-anismo) designa os sistemas homem-máquina autorregulativos com a ideia de que uma nova fronteira estava se abrindo através de uma ponte entre a mente e a matéria, entre espaço interno e externo, ou seja, a hibridização humana. Portanto, temos a realidade virtual, a comunicação global, a protética e a nanotecnologia, as redes neurais, os algoritmos genéticos, a manipulação genética e a vida artificial como exemplos de tecnologias pós-humanas.

            Nesse entendimento, a relação do humano com a natureza e com a sua própria natureza é uma relação mediada pelos signos e pela cultura. As primeiras tecnologias sígnicas (escrita, desenho, pintura), da comunicação e da cultura, já foram a fala e o gesto, isto é, desde que o ser humano se constituiu como tal, nunca houve uma cisão entre o biológico e o técnico. À luz da semiótica, as linhas divisórias entre o mundo natural e o cultural, o biológico e o tecnológico se esfumam, podem perder toda a nitidez.

            Destaca-se que o termo pós-humano significa uma porção de coisas ao mesmo tempo. Pós-humano é a nanotecnologia, a inteligência artificial, a robótica, a vida artificial etc. De fato, hoje somos seres híbridos, biomaquínicos, biocibernéticos, corpos e mentes híbridos entre a máquina e o orgânico, entre o silício e o carbono. Por conseguinte, à luz da psicanálise, o pós-humano precisa ser pensado como uma realidade híbrida, não apenas do humano com as máquinas, mas também com o inorgânico da natureza.

            Por outro lado, o corpo, desde os primórdios tem se tornado suporte da arte; os rituais, a dança e o teatro, como também a escultura, o retrato, o auto-retrato e o nu feminino. Assim, por volta dos anos 50 e 60 do século XX, os corpos vivos, quaisquer que fossem seus tipos de atuação – mesmo que de forma exótica e em desacordo com os costumes e regras atuais – eram, por si e em si mesmo, arte. Neste caso, o discurso visual da arte, por volta dos anos 80 o pós-moderno passou a ser relacionado com o alegórico, o apropriativo, a desconstrução e com a ruptura das fronteiras entre as artes e as camadas da cultura superior-erudita, inferior-popular e de massa. Já nos anos 90, a arte, por meio das tecnologias, passam a fragmentar e multiplicar o corpo através de espaços drasticamente não perspectivados.

            As artes do corpo biocibernético são significadas como forma e material de criação e transformação por que o corpo e, com ele, os equipamentos sensório – perceptivos, a mente, a consciência e a sensibilidade do ser humano vem passando como fruto de suas simbioses com as tecnologias. Arte do corpo remodelado, arte do corpo protético, arte do corpo esquadrinhado, arte do corpo plugado, arte do corpo simulado, arte do corpo digitalizado e arte do corpo molecular são exemplos de corpos biocibernéticos.

            De fato, de algumas décadas para cá, cada vez mais o humano passou a ser definido em relação aos sistemas cibernéticos – computadores, organismos engenheirados biologicamente, ecossistemas, sistemas espertos, robôs, androides e ciborgs – todos eles certamente evocando formas perturbadoras de ambivalência. Portanto, seres humanos e máquinas estão se aliando não apenas porque os seres humanos estão convivendo, interagindo e se integrando às máquinas, mas muito mais porque elas, as máquinas, estão ficando cada vez mais parecidas com os humanos.

            Por esse motivo, das mudanças em virtude das revoluções, em especial, a tecnológica é que se fala da morte da arte, a arte depois da arte. A rigor, não é a morte da arte em si, mas de uma nova conceituação, uma nova roupagem que se deu à arte, em virtude da revolução digital. Nesse panorama, não apenas as artes, mas também a cultura em geral, nas últimas décadas, estão passando por uma revolução tecnológica informacional. Assim, a arte, através da sua linguagem, códigos, sinais etc faz parte da cultura, que nos tempos atuais vive a diluição de fronteiras entre os seus vários tipos. Nenhum tipo ou era cultural desapareceu, o que aconteceu foi que houve um processo de hibridização.