PESSOA,
Jadir de Morais. Cultura Popular: gestos de ensinar e aprender. Petrópolis /
RJ: Vozes, 2018.
No livro “Cultura Popular: Gestos de ensinar e aprender” publicado pela
Editora Vozes em 2018, escrito por Jadir de Morais Pessoa – Professor aposentado
da Universidade Federal de Goiás, membro de uma Folia de Reis goiana e da
Comissão Goiana de Folclore e sócio titular no Instituto Histórico e Geográfico
de Goiás. O autor propõe uma excelente reflexão com referência e a partir do
lugar de suas vivências acerca da cultura e da cultura popular. O autor
adverte-nos para que prestemos atenção sobre a concepção deste saber, pois é um
campo de intensa disputa teórica e comercial midiática. O livro, composto de
sete capítulos, apresenta discussões teóricas e práticas sobre a temática das
cinco regiões brasileiras, inclusive suas contribuições para a educação escolar
e externa à escola, que através de gestos e significados revelam o processo de
ensino – aprendizagem, possível de revitalização e sentido.
O autor inicia suas reflexões no
capítulo I trazendo à tona a cultura como um campo de disputas, e que ela é bem
vista tão somente quando equivale à produção de bens e serviços rentáveis.
Dessa forma, a lucratividade é o que importa e o alto consumo dos bens
produzidos não combina com a uniformização. É por isso que a diversidade
cultural tornou-se a nova crença do terceiro milênio. Logo, a propósito da
extração de maior lucratividade, as empresas cunharam o termo obsolescência
programada. Embora a ideia do descartável vem desde as últimas décadas do
século XIX. Paralelamente a isso, tornou-se igualmente fácil acostumar-se com a
ideia de que também o gosto, a qualidade musical e os estilos de dança não tem
que durar a vida inteira. Assim, um sucesso musical não precisa embalar sonhos
de duas gerações.
Falar de cultura popular nesse
contexto não é tarefa fácil, pois o que se percebe nos megaeventos (Festa juninas
nordestinas, Festival de bois de Parintins, Festa de peão boiadeiro de Barretos
etc.) é que os interesses econômicos e políticos são muito mais reais e nesse
caso, a característica das “tradições inventadas” se referem a um passado
histórico real; mas essa inculcação real ao passado se dá apenas
artificialmente.
Diante dos pressupostos mencionados,
ainda é possível falar de cultura numa perspectiva autêntica, especialmente no
âmbito da cultura popular. Os estudiosos dessa temática são unânimes em dizer
que cultura popular é folclore e se há diferenças entre os dois termos, são
mínimas, podendo chegar a dizer que o termo folclore refere-se à tradição,
portanto, é mais conservador; enquanto o termo cultura popular é mais dinâmico
e, por conseguinte, dá vazão a reflexões mais progressistas.
No capítulo II, o autor continua as
discussões sobre o pressuposto de que a vida cria a cultura e a cultura cria a
vida. Nesse sentido, são nas realizações das atividades do dia-a-dia que a
cultura se manifesta e é nesses fazeres que os grupos humanos imprimem valores
e significados. Entre essas ações dos sujeitos e dos grupos têm-se a cultura
como recurso, ou seja, que à cultura agora, cabem tarefas que anteriormente
eram restritas às áreas da economia e da prática. Os festejos populares do mês
de junho, no nordeste, que são transformados pelo comércio em interesses
políticos e econômicos em grandes empreendimentos. Nesse caso utilizam o termo
campo como um sistema de relações entre os diversos agentes e instituições,
tais como: poder público, empresas patrocinadoras, empresas promotoras de
eventos, artistas, canais de televisão, emissoras de rádio etc.
Vale ressaltar que um dos difusores
da cultura e cultura popular no Brasil, por volta do século XIX e parte do
século XX foi a criação dos almanaques. Nessa época, as deficiências em termos
de comunicação eram grandes, bem como a mobilidade das massas pobres, de
escolarização, mesmo a mais elementar. Então, o almanaque, caía perfeitamente
nesse solo de carecimentos e desejos, principalmente porque era distribuído
gratuitamente.
Os conflitos e tensões políticas e
sociais dos anos 1960 fizeram emergir uma concepção muito especial de cultura.
A cultura passou a ser um tema disputado por intelectuais, professores,
estudantes, artistas; como algo que deveria ser visto a serviço do povo e
deveria também ser instrumento de consciência revolucionária. Ainda, como
exercício de complementaridade, a cultura passava a ser entendida sobre os
conceitos das ciências do social e o hábitus. Sobre as ciências do social, o
mais importante é penetrar fundo no “gênio da cultura”, ou seja, atitudes
fundamentais que controlam o comportamento individual e em grupo. Na ideia de
hábitus, proposta por Bordieu, a caracterização mais clássica são estruturas
estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes. Além
disso, no cenário atual, podemos falar da cultura mundo, ou seja, o fim da
heterogeneidade tradicional da esfera cultural e a universalização da cultura
mercantil. De igual modo, quase não existem diferenças nos tipos de cultura,
porém o folclore funciona como um núcleo simbólico para expressar um certo tipo
de sentimento, de convívio social e de visão de mundo que, ainda quando
totalmente reinterpretado e revestido de modernas técnicas de difusão, continua
sendo importante, porque remete à memória longa.
O capítulo III parte do princípio de
que a educação é uma ação própria da sociedade, tendo em vista a socialização
dos indivíduos e dos grupos e vincula o educar, no sentido de formar indivíduos,
e grupos capazes de compreender e interagir com os movimentos todos da vida,
dos quais faz parte. Então, a educação compreendida no sentido amplo reforça que
em todos os espaços da sociedade acontecem, com indisfarçável intencionalidade,
gestos de transmissão de valores diversos. Nesse sentido, a educação, além de ser
o veículo que garante a estabilização e continuidade de cultura, ela também é
espaço de recriação e de modificação de heranças recebidas afim de promover a
criatividade, a originalidade e a iniciativa, no sentido de inovar, de
modificar e de aperfeiçoar. Por isso mesmo, a educação considerada também fora
do recinto escolar propicia que a literatura no ensino da religiosidade,
sentimento de pertença à natureza e solidariedade são valores típicos do mundo
camponês e portanto, constituem a cultura popular. Por conseguinte, a cultura
popular deve ser pensada como cultura, como conhecimento acumulado
sistematizado, interpretativo e explicativo, e não como cultura barbarizada,
forma decaída da cultura hegemônica.
Partindo da ideia de que a educação
e a cultura estão imbricadas, Brandão diz que nos fazeres que caracterizam o
lugar do homem no mundo da cultura, há uma centralidade da educação, ou seja,
todos os gestos que o definem como ser constituinte do mundo da cultura, desde
o mais banal como o ancestral polimento da ponta de uma flecha, são
essencialmente experiências de ensinar e aprender. Desse modo, Bordieu entende
que o motor de nossas ações no mundo – principalmente de ação histórica – não só
reside na consciência ou na subjetividade, entretanto, na relação dialética
entre ambas. Nesse contexto, a linguagem é intersubjetividade, é relação que se
estabelece, em meio a tantas outras relações sociais.
O capítulo IV tem como horizonte o
abrangente painel das regiões brasileiras em que emerge a cultura popular, como
expressão direta das relações econômicas, de trabalho e de poder. Em cada
região, a produção dos meios de existência é recriada simbolicamente pelo
imaginário popular coletivo, produzindo expressões próprias de resistência.
Também mostra como a diversidade da cultura popular dialoga com as grandes
heranças macro formadoras da cultura brasileira – branco-europeia, negra e
indígena – mas ao mesmo tempo está profundamente assentada na ideia de região,
fala miúda da vida, de realidades sociais muito localizáveis. Ademais,
registros da cultura popular são encontrados: na transmissão oral de saberes e
costumes; em escritores regionalistas que trazem para dentro de seus contos,
novelas, romances e poesias; nas músicas caipiras ou de outros gêneros com características
regionais; nos ritos religiosos populares; na pesquisa etnográfica e no
folclore.
O autor dá bastante ênfase às
festas, pois elas expressam com mais intensidade a diversidade da cultura
popular. Elas são meios simbólicos essenciais, através dos quais os
sentimentos, os saberes, os sentidos, os significados e as sociabilidades
inevitáveis da vida de todos os dias são retraduzidos e reditos, solenemente
pronunciados entre a prece, o canto, a dança, o cortejo, a romaria, o teatro, a
celebração, enfim, vale lembrar também das comidas. Sobre as festas populares,
a folia de reis, o carnaval e as festas de junho destacam. Também fazem parte
da cultura popular, em várias regiões do Brasil, os contos populares e os
causos. Conto popular é quando se está tratando de literatura oral ou quando se
trata de folclore. O causo é quando se refere a uma função prática, a formação
moral, feita ao pé do fogo, quando anoitece, fustigando a imaginação e aguçando
o medo da meninada. Sem esquecer das brincadeiras como criações e também o
ofício das parteiras e benzedeiras. Logo, em todas essas manifestações, longe
da grande mídia, prevalece uma forma de ensinar e aprender, geralmente no
âmbito da família ou da vizinhança; o gesto de quem sabe e faz, diante de quem
olha com sede de aprender.
No capítulo V o autor foca nos
saberes e gestos que são propiciados pela cultura popular, ensinamentos estes
que acontecem ali mesmo no cotidiano, que são frutos da vida em comunidade e é
sempre um coaprendizado. Cada pessoa possui uma fonte original de saber e
sensibilidade. Em cada momento de nossas vidas estamos ensinando algo a alguém,
ao mesmo tempo em que aprendemos algo com alguém.
Dessa forma, o aprendizado só
acontece se a educação que estiver implícita supor encantamento. As
manifestações populares de cultura, mormente as festas populares, o próprio
fato cultural já é portador de encantamento. A festa popular é o grande e
fecundo momento a nos ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que
nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo. Sem o novo,
paramos no tempo, mas sem o velho apresentamos ao presente e ao futuro de mãos
vazias.
A título de ilustração, temos as
festas populares, em especial as folias de reis, que transbordam encantamento e
fascinação; realiza um grande ato educacional que se expressa numa consagrada
manifestação estética. Não somente a estética se observa nessas festas, mas
também o paladar e o espírito. É verdade que muitas das comidas preparadas para
as festas, são receitas que passaram e passam oralmente de mães às filhas.
Somando-se aos ensinamentos das festas e culinárias, existem os provérbios, que
são uma filosofia de vida, um recurso usado no mundo inteiro, com o objetivo de
transmitir experiências às novas gerações.
O capítulo VI trata-se dos
diferentes saberes constituídos nas classes subalternas, ou seja, o espaço de
relações e contradições engendradas no mundo do trabalho. A relação da classe
dominante com a classe dominada é dialética e não podemos dizer que a primeira
tem os mesmos costumes e hábitos, afinidades e interesses, uma história e tradições
comuns e iguais ou ao menos parecidos com a segunda classe. O mundo do trabalho
se materializa em espaços sociais que compreendem dois fatores antagônicos, que
combatem por interesses contrários, a saber, o capital e o trabalho. Logo, as
culturas populares são, por definição, culturas de grupos sociais subalternos.
Elas são construídas por disseminação. Nessas relações podem ocorrer
resistência e submissão e pode acontecer, em alguns casos, da resistência ser
alienante e a submissão libertadora.
No capítulo VII o autor afiança que
a cultura popular com seus gestos de ensinar e aprender não tem necessariamente
uma relação direta com a educação escolar, mas por outro lado, não há nenhuma
impossibilidade de que isso se passe na escola. Também, o fato de desde a
primeira metade do século XX a escola ter sido concebida como uma fábrica e os
estudantes, a matéria prima. Desse modo, a arte, um dos principais objetos do
fazer da cultura popular não teve possibilidade de se inserir como constitutiva
do fazer da educação. A ciência era considerada cognitiva, as artes emocionais.
O autor complementa que, esta cultura cognitiva, cada vez mais tecnicista,
ainda nos acompanha nesse início do século XXI, sendo que o objetivo maior da
educação deveria ser outro, o da formação de artistas.
Nesse sentido, fica evidente que a
escola trabalha com as concepções e valores urbanos e dominantes da sociedade
capitalista. Em geral, se dá muito mais importância ao exotismo do que ao
conhecimento do fato folclórico propriamente dito. A escola exclui de várias
formas o capital cultural das crianças e adolescentes das classes populares e
os teóricos a vê como espaço privilegiado de reprodução da ideologia dominante.
Portanto, a escola, por sua natureza, por sua especialidade como difusora do
conhecimento científico, como formadora de comportamentos socialmente pactuados
etc., não tem sido, conforme mostra a história, um espaço franqueado ao
folclore, aos saberes do povo, à cultura popular.
Enfim, a obra ora analisada é de
suma importância para quem quer entender o valor da cultura popular para o
momento presente em que vivemos. São inúmeros os fatores que apresentam uma
relação a favor ou contrários à cultura popular. A obsolescência programada, a
mercantilização generalizada, o enriquecimento cultural, o sentido
desumanizador, resistência e transformação. Ainda esclarece que a cultura
popular é folclore e é tão importante como o Português e a Matemática na escola.
Admite-se que é difícil manter a originalidade da cultura popular com o avanço
da tecnologia, das comunicações, tudo se mistura e perde a originalidade. Por
fim, é preciso entender que a cultura popular é uma prática social, é uma forma
de ação na cultura, na vida em sociedade e, portanto, não pode ser vista como
coisa de uma época já na condição de página virada da história.
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