segunda-feira, 24 de agosto de 2020

RESENHA

 

PESSOA, Jadir de Morais. Cultura Popular: gestos de ensinar e aprender. Petrópolis / RJ: Vozes, 2018.

 

            No livro “Cultura Popular: Gestos de ensinar e aprender” publicado pela Editora Vozes em 2018, escrito por Jadir de Morais Pessoa – Professor aposentado da Universidade Federal de Goiás, membro de uma Folia de Reis goiana e da Comissão Goiana de Folclore e sócio titular no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. O autor propõe uma excelente reflexão com referência e a partir do lugar de suas vivências acerca da cultura e da cultura popular. O autor adverte-nos para que prestemos atenção sobre a concepção deste saber, pois é um campo de intensa disputa teórica e comercial midiática. O livro, composto de sete capítulos, apresenta discussões teóricas e práticas sobre a temática das cinco regiões brasileiras, inclusive suas contribuições para a educação escolar e externa à escola, que através de gestos e significados revelam o processo de ensino – aprendizagem, possível de revitalização e sentido.

            O autor inicia suas reflexões no capítulo I trazendo à tona a cultura como um campo de disputas, e que ela é bem vista tão somente quando equivale à produção de bens e serviços rentáveis. Dessa forma, a lucratividade é o que importa e o alto consumo dos bens produzidos não combina com a uniformização. É por isso que a diversidade cultural tornou-se a nova crença do terceiro milênio. Logo, a propósito da extração de maior lucratividade, as empresas cunharam o termo obsolescência programada. Embora a ideia do descartável vem desde as últimas décadas do século XIX. Paralelamente a isso, tornou-se igualmente fácil acostumar-se com a ideia de que também o gosto, a qualidade musical e os estilos de dança não tem que durar a vida inteira. Assim, um sucesso musical não precisa embalar sonhos de duas gerações.

            Falar de cultura popular nesse contexto não é tarefa fácil, pois o que se percebe nos megaeventos (Festa juninas nordestinas, Festival de bois de Parintins, Festa de peão boiadeiro de Barretos etc.) é que os interesses econômicos e políticos são muito mais reais e nesse caso, a característica das “tradições inventadas” se referem a um passado histórico real; mas essa inculcação real ao passado se dá apenas artificialmente.

            Diante dos pressupostos mencionados, ainda é possível falar de cultura numa perspectiva autêntica, especialmente no âmbito da cultura popular. Os estudiosos dessa temática são unânimes em dizer que cultura popular é folclore e se há diferenças entre os dois termos, são mínimas, podendo chegar a dizer que o termo folclore refere-se à tradição, portanto, é mais conservador; enquanto o termo cultura popular é mais dinâmico e, por conseguinte, dá vazão a reflexões mais progressistas.

            No capítulo II, o autor continua as discussões sobre o pressuposto de que a vida cria a cultura e a cultura cria a vida. Nesse sentido, são nas realizações das atividades do dia-a-dia que a cultura se manifesta e é nesses fazeres que os grupos humanos imprimem valores e significados. Entre essas ações dos sujeitos e dos grupos têm-se a cultura como recurso, ou seja, que à cultura agora, cabem tarefas que anteriormente eram restritas às áreas da economia e da prática. Os festejos populares do mês de junho, no nordeste, que são transformados pelo comércio em interesses políticos e econômicos em grandes empreendimentos. Nesse caso utilizam o termo campo como um sistema de relações entre os diversos agentes e instituições, tais como: poder público, empresas patrocinadoras, empresas promotoras de eventos, artistas, canais de televisão, emissoras de rádio etc.

            Vale ressaltar que um dos difusores da cultura e cultura popular no Brasil, por volta do século XIX e parte do século XX foi a criação dos almanaques. Nessa época, as deficiências em termos de comunicação eram grandes, bem como a mobilidade das massas pobres, de escolarização, mesmo a mais elementar. Então, o almanaque, caía perfeitamente nesse solo de carecimentos e desejos, principalmente porque era distribuído gratuitamente.

            Os conflitos e tensões políticas e sociais dos anos 1960 fizeram emergir uma concepção muito especial de cultura. A cultura passou a ser um tema disputado por intelectuais, professores, estudantes, artistas; como algo que deveria ser visto a serviço do povo e deveria também ser instrumento de consciência revolucionária. Ainda, como exercício de complementaridade, a cultura passava a ser entendida sobre os conceitos das ciências do social e o hábitus. Sobre as ciências do social, o mais importante é penetrar fundo no “gênio da cultura”, ou seja, atitudes fundamentais que controlam o comportamento individual e em grupo. Na ideia de hábitus, proposta por Bordieu, a caracterização mais clássica são estruturas estruturadas predispostas a funcionar como estruturas estruturantes. Além disso, no cenário atual, podemos falar da cultura mundo, ou seja, o fim da heterogeneidade tradicional da esfera cultural e a universalização da cultura mercantil. De igual modo, quase não existem diferenças nos tipos de cultura, porém o folclore funciona como um núcleo simbólico para expressar um certo tipo de sentimento, de convívio social e de visão de mundo que, ainda quando totalmente reinterpretado e revestido de modernas técnicas de difusão, continua sendo importante, porque remete à memória longa.

            O capítulo III parte do princípio de que a educação é uma ação própria da sociedade, tendo em vista a socialização dos indivíduos e dos grupos e vincula o educar, no sentido de formar indivíduos, e grupos capazes de compreender e interagir com os movimentos todos da vida, dos quais faz parte. Então, a educação compreendida no sentido amplo reforça que em todos os espaços da sociedade acontecem, com indisfarçável intencionalidade, gestos de transmissão de valores diversos. Nesse sentido, a educação, além de ser o veículo que garante a estabilização e continuidade de cultura, ela também é espaço de recriação e de modificação de heranças recebidas afim de promover a criatividade, a originalidade e a iniciativa, no sentido de inovar, de modificar e de aperfeiçoar. Por isso mesmo, a educação considerada também fora do recinto escolar propicia que a literatura no ensino da religiosidade, sentimento de pertença à natureza e solidariedade são valores típicos do mundo camponês e portanto, constituem a cultura popular. Por conseguinte, a cultura popular deve ser pensada como cultura, como conhecimento acumulado sistematizado, interpretativo e explicativo, e não como cultura barbarizada, forma decaída da cultura hegemônica.

            Partindo da ideia de que a educação e a cultura estão imbricadas, Brandão diz que nos fazeres que caracterizam o lugar do homem no mundo da cultura, há uma centralidade da educação, ou seja, todos os gestos que o definem como ser constituinte do mundo da cultura, desde o mais banal como o ancestral polimento da ponta de uma flecha, são essencialmente experiências de ensinar e aprender. Desse modo, Bordieu entende que o motor de nossas ações no mundo – principalmente de ação histórica – não só reside na consciência ou na subjetividade, entretanto, na relação dialética entre ambas. Nesse contexto, a linguagem é intersubjetividade, é relação que se estabelece, em meio a tantas outras relações sociais.

            O capítulo IV tem como horizonte o abrangente painel das regiões brasileiras em que emerge a cultura popular, como expressão direta das relações econômicas, de trabalho e de poder. Em cada região, a produção dos meios de existência é recriada simbolicamente pelo imaginário popular coletivo, produzindo expressões próprias de resistência. Também mostra como a diversidade da cultura popular dialoga com as grandes heranças macro formadoras da cultura brasileira – branco-europeia, negra e indígena – mas ao mesmo tempo está profundamente assentada na ideia de região, fala miúda da vida, de realidades sociais muito localizáveis. Ademais, registros da cultura popular são encontrados: na transmissão oral de saberes e costumes; em escritores regionalistas que trazem para dentro de seus contos, novelas, romances e poesias; nas músicas caipiras ou de outros gêneros com características regionais; nos ritos religiosos populares; na pesquisa etnográfica e no folclore.

            O autor dá bastante ênfase às festas, pois elas expressam com mais intensidade a diversidade da cultura popular. Elas são meios simbólicos essenciais, através dos quais os sentimentos, os saberes, os sentidos, os significados e as sociabilidades inevitáveis da vida de todos os dias são retraduzidos e reditos, solenemente pronunciados entre a prece, o canto, a dança, o cortejo, a romaria, o teatro, a celebração, enfim, vale lembrar também das comidas. Sobre as festas populares, a folia de reis, o carnaval e as festas de junho destacam. Também fazem parte da cultura popular, em várias regiões do Brasil, os contos populares e os causos. Conto popular é quando se está tratando de literatura oral ou quando se trata de folclore. O causo é quando se refere a uma função prática, a formação moral, feita ao pé do fogo, quando anoitece, fustigando a imaginação e aguçando o medo da meninada. Sem esquecer das brincadeiras como criações e também o ofício das parteiras e benzedeiras. Logo, em todas essas manifestações, longe da grande mídia, prevalece uma forma de ensinar e aprender, geralmente no âmbito da família ou da vizinhança; o gesto de quem sabe e faz, diante de quem olha com sede de aprender.

            No capítulo V o autor foca nos saberes e gestos que são propiciados pela cultura popular, ensinamentos estes que acontecem ali mesmo no cotidiano, que são frutos da vida em comunidade e é sempre um coaprendizado. Cada pessoa possui uma fonte original de saber e sensibilidade. Em cada momento de nossas vidas estamos ensinando algo a alguém, ao mesmo tempo em que aprendemos algo com alguém.

            Dessa forma, o aprendizado só acontece se a educação que estiver implícita supor encantamento. As manifestações populares de cultura, mormente as festas populares, o próprio fato cultural já é portador de encantamento. A festa popular é o grande e fecundo momento a nos ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo. Sem o novo, paramos no tempo, mas sem o velho apresentamos ao presente e ao futuro de mãos vazias.

            A título de ilustração, temos as festas populares, em especial as folias de reis, que transbordam encantamento e fascinação; realiza um grande ato educacional que se expressa numa consagrada manifestação estética. Não somente a estética se observa nessas festas, mas também o paladar e o espírito. É verdade que muitas das comidas preparadas para as festas, são receitas que passaram e passam oralmente de mães às filhas. Somando-se aos ensinamentos das festas e culinárias, existem os provérbios, que são uma filosofia de vida, um recurso usado no mundo inteiro, com o objetivo de transmitir experiências às novas gerações.

            O capítulo VI trata-se dos diferentes saberes constituídos nas classes subalternas, ou seja, o espaço de relações e contradições engendradas no mundo do trabalho. A relação da classe dominante com a classe dominada é dialética e não podemos dizer que a primeira tem os mesmos costumes e hábitos, afinidades e interesses, uma história e tradições comuns e iguais ou ao menos parecidos com a segunda classe. O mundo do trabalho se materializa em espaços sociais que compreendem dois fatores antagônicos, que combatem por interesses contrários, a saber, o capital e o trabalho. Logo, as culturas populares são, por definição, culturas de grupos sociais subalternos. Elas são construídas por disseminação. Nessas relações podem ocorrer resistência e submissão e pode acontecer, em alguns casos, da resistência ser alienante e a submissão libertadora.

            No capítulo VII o autor afiança que a cultura popular com seus gestos de ensinar e aprender não tem necessariamente uma relação direta com a educação escolar, mas por outro lado, não há nenhuma impossibilidade de que isso se passe na escola. Também, o fato de desde a primeira metade do século XX a escola ter sido concebida como uma fábrica e os estudantes, a matéria prima. Desse modo, a arte, um dos principais objetos do fazer da cultura popular não teve possibilidade de se inserir como constitutiva do fazer da educação. A ciência era considerada cognitiva, as artes emocionais. O autor complementa que, esta cultura cognitiva, cada vez mais tecnicista, ainda nos acompanha nesse início do século XXI, sendo que o objetivo maior da educação deveria ser outro, o da formação de artistas.

            Nesse sentido, fica evidente que a escola trabalha com as concepções e valores urbanos e dominantes da sociedade capitalista. Em geral, se dá muito mais importância ao exotismo do que ao conhecimento do fato folclórico propriamente dito. A escola exclui de várias formas o capital cultural das crianças e adolescentes das classes populares e os teóricos a vê como espaço privilegiado de reprodução da ideologia dominante. Portanto, a escola, por sua natureza, por sua especialidade como difusora do conhecimento científico, como formadora de comportamentos socialmente pactuados etc., não tem sido, conforme mostra a história, um espaço franqueado ao folclore, aos saberes do povo, à cultura popular.

            Enfim, a obra ora analisada é de suma importância para quem quer entender o valor da cultura popular para o momento presente em que vivemos. São inúmeros os fatores que apresentam uma relação a favor ou contrários à cultura popular. A obsolescência programada, a mercantilização generalizada, o enriquecimento cultural, o sentido desumanizador, resistência e transformação. Ainda esclarece que a cultura popular é folclore e é tão importante como o Português e a Matemática na escola. Admite-se que é difícil manter a originalidade da cultura popular com o avanço da tecnologia, das comunicações, tudo se mistura e perde a originalidade. Por fim, é preciso entender que a cultura popular é uma prática social, é uma forma de ação na cultura, na vida em sociedade e, portanto, não pode ser vista como coisa de uma época já na condição de página virada da história.

           

           

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário