SANTOS,
José Luiz dos. O que é Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.
O livro “O que é Cultura” publicado pela Editora Brasiliense em 1983,
escrito por José Luiz dos Santos apresenta a definição do que é Cultura, bem
como sua relação com a história da humanidade. O livro apresenta quatro partes
principais: cultura e diversidade, o que se entende por cultura, cultura em
nossa sociedade, cultura e relações de poder.
Na primeira parte do livro, o autor
discute acerca da diversidade de fatores que se relacionam com a cultura,
inclusive fala da cultura como tudo que caracteriza a população humana. O
desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre os
modos de organizar a vida social, de se apropriar dos recursos naturais e
transformá-los, de conceber a realidade e expressá-la. A história registra as
inúmeras transformações pelas quais passa a cultura. Ademais, apresenta as duas
possibilidades básicas que se relacionam as culturas entre si. Desse modo, na
primeira possibilidade, pensa-se em hierarquizar as culturas segundo algum
critério, ou seja, usando o critério da capacidade de produção material pode-se
dizer que uma cultura é mais avançada que a outra. Na segunda possibilidade,
nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização, pois cada cultura tem
seus próprios critérios de avaliação e para uma tal hierarquização ser
construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios da outra. Logo,
acredita-se que nenhuma cultura é superior ou inferior a outra em termos de
importância ou desenvolvimento.
É essencial que se considere a diversidade
cultural interna à sociedade para compreender melhor o país em que se vive.
Essa diversidade não é só feita de ideias, mas também com as maneiras de atuar
na vida social. Ela também se constitui de maneiras diferentes de viver, cujas
razões podem ser estudadas, contribuindo para eliminar preconceitos e
perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Também no
estudo de uma sociedade particular não faz sentido considerar de maneira isolada
cada uma das formas culturais diversas nela existentes, pois elas certamente
fazem parte de processos sociais mais globais. Portanto, não há motivos para
fazer relativizações.
O autor, na segunda parte do livro
tem a intenção de trazer e discutir o que se entende por cultura, uma vez que
ao termo entende-se muita coisa e existem muitos sentidos. O próprio autor admite
que tem falado de cultura de maneira mais genérica, preocupado com tudo que caracteriza
a população humana. Cultura está muito associada a estudo, educação, formação
escolar. Refere-se também a manifestações artísticas, como o teatro, a música,
a pintura, a escultura. Outras vezes, ela é identificada com os meios de
comunicação de massa, tais como o rádio, o cinema e a televisão. Também às
festas e cerimônias tradicionais, às lendas e crenças de um povo, ou a seu modo
de vestir, à sua comida, seu idioma. Além de tudo isso, são apresentadas duas
concepções básicas de cultura. A primeira remete a todos os aspectos de uma
realidade social; a segunda refere-se mais especificamente ao conhecimento, às
ideias e crenças de um povo.
Dessa forma, as reflexões sobre
assuntos relacionados à cultura são encontrados em autores da Grécia, Roma e China
antigas, contudo, as preocupações sistemáticas são mais recentes.
Desenvolveram-se a partir do século XVIII, na Alemanha, e a cultura vinha com a
preocupação de pensadores em interpretar a história humana, compreender as
particularidades das crenças e costumes e entender o desenvolvimento dos povos
nas condições materiais em que se desenvolviam. O significado original de
cultura está ligado às atividades agrícolas. Vem do verbo latino colere que quer dizer cultivar, porém
pensadores romanos antigos ampliaram esse significado ao refinamento pessoal
que está na expressão cultura da alma. Já no século XIX a preocupação com a
cultura se generalizou como uma questão científica. Logo, a cultura, nessa
época, esteve associada a dois aspectos principais. Primeiro, que se tornou
dominante uma visão laica, quer dizer, não religiosa, do mundo social e da vida
humana. Em segundo lugar, a moderna preocupação com a cultura nasceu associada
tanto com necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação
política.
É possível perceber que, no que se
refere à cultura, a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a
cultura dominante do Ocidente, entendendo-se aí a cultura tanto no seu aspecto material
quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. Nesse
sentido, cultura pode por um lado referir-se à alta cultura, à cultura
dominante, e por outro, a qualquer cultura. Por conseguinte, a cultura é a
dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e
todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica.
Na parte III do livro, o autor
afirma que as sociedades contemporâneas possuem uma grande diversificação
interna, logo, se a cultura é dimensão do processo social, ela deverá ser
entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. No âmbito
diversificado da cultura, está imerso o erudito e o popular. A cultura erudita
de acesso da classe dominante, é uma cultura mais refinada. Já a cultura
popular, da maior parte da população era e ainda é considerada inferior,
atrasada.
Em se tratando do popular na cultura é
necessário entender, então, o que faz parte do popular. Em certo sentido, povo
pode ser entendido como toda a população de um país, em outro, como a população
mais pobre, em outro, ainda, como toda a população trabalhadora, incluindo nela
os pequenos proprietários rurais e urbanos. É comum que cultura popular diga
respeito a esta última parcela da população, mas nem sempre é esse o caso.
Assim, falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e
sentir que seja típico de uma população, que seja característico dela, que seja
mesmo um patrimônio seu.
Outro aspecto a ser considerado ao
se tratar da temática em curso é a cultura de massa. Costuma-se considerar que
ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão do mundo das
diversificadas populações que formam a sociedade ultrapassando barreiras de
classe social e facilitando, por essas razões o controle das massas. Tais
instrumentos seriam principalmente o rádio, a televisão, a imprensa, o cinema e
a internet. Ademais, pode-se mencionar também a cultura nacional, uma dimensão
dinâmica e viva, importante nos processos internos dessa sociedade, importante
para entender as relações internacionais.
Por fim, a quarta e última parte do
livro discute a cultura e as relações de poder. A cultura está associada com as
formas de dominação na sociedade e continua sendo instrumento de conhecimento
ligada ao progresso social. O relativismo pode servir para encobrir aspectos
mais candentes da organização social e de relação entre os povos e nações, ou
seja, a opressão, também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos
como relativos. Da mesma forma, a cultura pode ser tratada como uma realidade
estanque e a discussão sobre ela pode conduzir falsas polarizações, como no
caso da oposição erudito e popular. Portanto, a cultura é uma produção
coletiva, mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem
a todos, pois as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por
desigualdades profundas.
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