segunda-feira, 31 de agosto de 2020

RESENHA

 

SANTOS, José Luiz dos. O que é Cultura. São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

 

            O livro “O que é Cultura” publicado pela Editora Brasiliense em 1983, escrito por José Luiz dos Santos apresenta a definição do que é Cultura, bem como sua relação com a história da humanidade. O livro apresenta quatro partes principais: cultura e diversidade, o que se entende por cultura, cultura em nossa sociedade, cultura e relações de poder.

            Na primeira parte do livro, o autor discute acerca da diversidade de fatores que se relacionam com a cultura, inclusive fala da cultura como tudo que caracteriza a população humana. O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos e conflitos entre os modos de organizar a vida social, de se apropriar dos recursos naturais e transformá-los, de conceber a realidade e expressá-la. A história registra as inúmeras transformações pelas quais passa a cultura. Ademais, apresenta as duas possibilidades básicas que se relacionam as culturas entre si. Desse modo, na primeira possibilidade, pensa-se em hierarquizar as culturas segundo algum critério, ou seja, usando o critério da capacidade de produção material pode-se dizer que uma cultura é mais avançada que a outra. Na segunda possibilidade, nega-se que seja viável fazer qualquer hierarquização, pois cada cultura tem seus próprios critérios de avaliação e para uma tal hierarquização ser construída é necessário subjugar uma cultura aos critérios da outra. Logo, acredita-se que nenhuma cultura é superior ou inferior a outra em termos de importância ou desenvolvimento.

            É essencial que se considere a diversidade cultural interna à sociedade para compreender melhor o país em que se vive. Essa diversidade não é só feita de ideias, mas também com as maneiras de atuar na vida social. Ela também se constitui de maneiras diferentes de viver, cujas razões podem ser estudadas, contribuindo para eliminar preconceitos e perseguições de que são vítimas grupos e categorias de pessoas. Também no estudo de uma sociedade particular não faz sentido considerar de maneira isolada cada uma das formas culturais diversas nela existentes, pois elas certamente fazem parte de processos sociais mais globais. Portanto, não há motivos para fazer relativizações.

            O autor, na segunda parte do livro tem a intenção de trazer e discutir o que se entende por cultura, uma vez que ao termo entende-se muita coisa e existem muitos sentidos. O próprio autor admite que tem falado de cultura de maneira mais genérica, preocupado com tudo que caracteriza a população humana. Cultura está muito associada a estudo, educação, formação escolar. Refere-se também a manifestações artísticas, como o teatro, a música, a pintura, a escultura. Outras vezes, ela é identificada com os meios de comunicação de massa, tais como o rádio, o cinema e a televisão. Também às festas e cerimônias tradicionais, às lendas e crenças de um povo, ou a seu modo de vestir, à sua comida, seu idioma. Além de tudo isso, são apresentadas duas concepções básicas de cultura. A primeira remete a todos os aspectos de uma realidade social; a segunda refere-se mais especificamente ao conhecimento, às ideias e crenças de um povo.

            Dessa forma, as reflexões sobre assuntos relacionados à cultura são encontrados em autores da Grécia, Roma e China antigas, contudo, as preocupações sistemáticas são mais recentes. Desenvolveram-se a partir do século XVIII, na Alemanha, e a cultura vinha com a preocupação de pensadores em interpretar a história humana, compreender as particularidades das crenças e costumes e entender o desenvolvimento dos povos nas condições materiais em que se desenvolviam. O significado original de cultura está ligado às atividades agrícolas. Vem do verbo latino colere que quer dizer cultivar, porém pensadores romanos antigos ampliaram esse significado ao refinamento pessoal que está na expressão cultura da alma. Já no século XIX a preocupação com a cultura se generalizou como uma questão científica. Logo, a cultura, nessa época, esteve associada a dois aspectos principais. Primeiro, que se tornou dominante uma visão laica, quer dizer, não religiosa, do mundo social e da vida humana. Em segundo lugar, a moderna preocupação com a cultura nasceu associada tanto com necessidades do conhecimento quanto às realidades da dominação política.

            É possível perceber que, no que se refere à cultura, a realidade de cada país foi pensada tendo por referência a cultura dominante do Ocidente, entendendo-se aí a cultura tanto no seu aspecto material quanto de formas de conhecimento e concepções sobre a vida e a sociedade. Nesse sentido, cultura pode por um lado referir-se à alta cultura, à cultura dominante, e por outro, a qualquer cultura. Por conseguinte, a cultura é a dimensão da sociedade que inclui todo o conhecimento num sentido ampliado e todas as maneiras como esse conhecimento é expresso. É uma dimensão dinâmica.

            Na parte III do livro, o autor afirma que as sociedades contemporâneas possuem uma grande diversificação interna, logo, se a cultura é dimensão do processo social, ela deverá ser entendida de modo a poder dar conta dessas particularidades. No âmbito diversificado da cultura, está imerso o erudito e o popular. A cultura erudita de acesso da classe dominante, é uma cultura mais refinada. Já a cultura popular, da maior parte da população era e ainda é considerada inferior, atrasada.

             Em se tratando do popular na cultura é necessário entender, então, o que faz parte do popular. Em certo sentido, povo pode ser entendido como toda a população de um país, em outro, como a população mais pobre, em outro, ainda, como toda a população trabalhadora, incluindo nela os pequenos proprietários rurais e urbanos. É comum que cultura popular diga respeito a esta última parcela da população, mas nem sempre é esse o caso. Assim, falar em cultura popular pode implicar uma ênfase no modo de ser e sentir que seja típico de uma população, que seja característico dela, que seja mesmo um patrimônio seu.

            Outro aspecto a ser considerado ao se tratar da temática em curso é a cultura de massa. Costuma-se considerar que ela exige uma cultura capaz de homogeneizar a vida e a visão do mundo das diversificadas populações que formam a sociedade ultrapassando barreiras de classe social e facilitando, por essas razões o controle das massas. Tais instrumentos seriam principalmente o rádio, a televisão, a imprensa, o cinema e a internet. Ademais, pode-se mencionar também a cultura nacional, uma dimensão dinâmica e viva, importante nos processos internos dessa sociedade, importante para entender as relações internacionais.

            Por fim, a quarta e última parte do livro discute a cultura e as relações de poder. A cultura está associada com as formas de dominação na sociedade e continua sendo instrumento de conhecimento ligada ao progresso social. O relativismo pode servir para encobrir aspectos mais candentes da organização social e de relação entre os povos e nações, ou seja, a opressão, também o sofrimento das populações oprimidas serão vistos como relativos. Da mesma forma, a cultura pode ser tratada como uma realidade estanque e a discussão sobre ela pode conduzir falsas polarizações, como no caso da oposição erudito e popular. Portanto, a cultura é uma produção coletiva, mas nas sociedades de classe seu controle e benefícios não pertencem a todos, pois as relações entre os membros dessas sociedades são marcadas por desigualdades profundas.

           

           

Nenhum comentário:

Postar um comentário