sexta-feira, 18 de setembro de 2020

ARTIGO

 

APRENDIZAGEM SIGNIFICATIVA NO DESENVOLVIMENTO DAS

HABILIDADES LEITORAS

 

LEITE, Belchior Ribeiro[1]

ALVES, Ursulina Ataíde[2] Resumo

O presente trabalho surge da inquietação diante dos frequentes relatos de professores acerca das dificuldades de leitura dos alunos, que já no ensino médio demonstram não terem consolidado habilidades de leitura consideradas básicas. Frente a esta situação buscamos a confirmação das falas dos professores nos resultados das avaliações sistêmicas realizadas pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB. Complementarmente, buscamos identificar quais são as habilidades necessárias a um leitor competente. Para isso estudamos a matriz de referência e a escala de proficiência do SAEB. Realizamos um estudo de termos e conceitos ligados a essas aprendizagens, bem como sobre a aprendizagem significativa e as sequências didáticas. Acreditamos que para se fazerem pertinentes a aprendizagem da leitura deve ser significativa, no sentido de promover alterações nas estruturas de aprender do sujeito e que a sequência didática possibilita além de uma organização dos saberes a adoção de estratégias de ensino coerentes com a perspectiva da aprendizagem significativa. Anexo a este artigo uma sequência didática com o mesmo título, uma sugestão para o desenvolvimento de habilidades leitoras de forma significativa.

Palavras chave: Leitura, Letramento, Aprendizagem Significativa, Sequência Didática.

Abstract

 

The present work arises from the concern about the frequent reports of teachers about students' reading difficulties, who already in high school demonstrate that they have not consolidated reading skills considered basic. In view of this situation, we seek to confirm the statements of the teachers in the results of the systemic assessments carried out by the Basic Education Assessment System - SAEB. In addition, we seek to identify what skills are necessary for a competent reader. For that, we studied the reference matrix and the proficiency scale of the SAEB. We conducted a study of terms and concepts related to these learnings, as well as about meaningful learning and

 

didactic sequences. We believe that in order to become relevant, reading learning must be significant, in order to promote changes in the subject's learning structures and that the didactic sequence allows, in addition to an organization of knowledge, the adoption of teaching strategies coherent with the perspective of meaningful learning . Attached to this article is a didactic sequence with the same title, a suggestion for the development of reading skills in a meaningful way.

Keywords: Reading, Literacy, Meaningful Learning, Didactic Sequence.

Introdução

Este trabalho surge da inquietação diante dos frequentes relatos de professores sobre as dificuldades de leitura dos seus alunos. Estes demonstram, no cotidiano, pouca compreensão do que leem, por vezes não identificam nem mesmo as informações explícitas nos textos, capacidade básica até para leitores iniciantes.

A análise do desempenho dos alunos nas avaliações sistêmicas, aplicadas por meio do Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB, confirma e fundamenta a queixa dos professores. Mostra que, nos anos iniciais do ensino fundamental, ocorre o maior desenvolvimento das habilidades de leitura e que o salto de qualidade entre o 5º e o 9º ano do ensino fundamental não é tão significativo. Entre a etapa final do Ensino Fundamental e o 3º ano de ensino médio o ganho de qualidade é ainda menor. O que se percebe é que, ao progredir na escola, os estudantes não têm a mesma progressão nas habilidades de leitura. Esta análise é possível por causa da metodologia de avaliação utilizada no SAEB, a Teoria de Resposta ao Item – TRI e do estabelecimento de escalas de proficiência que determinam um crescente de complexidade das habilidades de leitura desenvolvidas ao longo da escolarização.

Mas o que isso significa?

A TRI é um conjunto de modelos que relacionam a probabilidade de um aluno apresentar uma determinada resposta a um item, com sua proficiência e características (parâmetros) do item.

O modelo logístico da TRI parte do princípio de que quanto maior a proficiência do respondente, maior a sua probabilidade de acerto, traço latente acumulativo. O seu parâmetro de dificuldade é medido na mesma escala da proficiência, fato este que permite a comparabilidade entre resultados de diferentes testes e a construção e interpretação de escalas de proficiência, como a escala nacional de proficiência do SAEB construída pelo INEP/MEC para Matemática e Língua Portuguesa (www.inep.gov.br). Uma outra leitura para esse parâmetro, a qual nos parece mais apropriada, é dizer que ele representa a proficiência mínima que um respondente deve possuir para que sua probabilidade de acerto seja alta, ou seja, ele poderia ser chamado de “proficiência do item”. (Nota Técnica – INEP/DAEB).  

 

Entre os seus instrumentos o SAEB utiliza matrizes de referência e escalas de proficiência. 

As primeiras representam um recorte do currículo e estabelecem aquilo que é possível de ser avaliado em um teste. As matrizes de referência se organizam em tópicos e descritores – detalhamento/descrição das habilidades de leitura. O Relatório do SAEB – 2017 assim se refere às matrizes de referência.

Os conhecimentos e as competências linguísticas esperados para cada etapa estão indicados nos descritores da Matriz de referência de língua portuguesa, dividida em 5° e 9° ano do ensino fundamental e 3ª série do ensino médio (Quadros 2, 3 e 4, respectivamente). Essa matriz é composta por seis tópicos, relacionados a habilidades desenvolvidas pelos estudantes. (Relatório SAEB 2017, pág. 24)

O relatório esclarece ainda que

[...] podem ser observados, nessa matriz, descritores comuns às três etapas de ensino avaliadas. Há, entretanto, diferenças no que diz respeito ao grau de complexidade com que esses descritores são tratados pelos avaliadores. Por isso, de um mesmo descritor derivam itens de graus de complexidade distintos, do ponto de vista tanto do objeto analisado – o texto – quanto da tarefa. O grau de complexidade do texto resulta, entre outros, da temática desenvolvida, das estratégias textuais utilizadas em sua composição, da escolha de um vocabulário mais ou menos incomum, dos recursos sintáticosemânticos empregados, bem como das determinações específicas do gênero e da época em que foi produzido. O grau de complexidade da tarefa resulta de aspectos relativos aos diversos saberes que o sujeito terá que mobilizar para resolver o problema proposto (Relatório Saeb 2017, pág.24). A segunda, as escalas de proficiência, apresenta intervalos de pontuação, com descrições das habilidades desenvolvidas pelo estudante dentro de cada intervalo. A localização de um estudante em um nível da escala implica que ele desenvolveu também as habilidades dos níveis anteriores e não exclui a possibilidade de já conseguir realizar a resolução de itens que avaliem habilidades próprias do nível seguinte.

Os resultados de desempenho nos testes do saeb são expressos por números na escala de proficiência, que variam de 0 a 500 pontos, com média de 250 e desvio padrão de 50. a escala pode ser visualizada como uma régua construída com base nos parâmetros estabelecidos para os itens aplicados nas edições do teste. Em cada ciclo da avaliação, o conjunto de itens aplicados nos testes de desempenho é posicionado na escala de proficiência com base nos parâmetros calculados por intermédio da TRI. Assim, o fato de um item estar alocado, por exemplo, no ponto 250 da escala do Saeb independe do teste do qual ele fez parte, pois se trata de uma característica própria de cada item. A ordenação dos itens na escala é feita com base no valor do parâmetro de dificuldade observada. Quanto maior o valor desse parâmetro, mais difícil considera-se o item (Relatório SAEB 2017, pág. 45).

As escalas de proficiência são apresentadas nos documentos do SAEB em duas formas, a primeira como a régua descrita acima, em que é possível localizar o intervalo de pontuação no qual se encontra o estudante e também a escola, ou mesmo a rede de ensino. Isso permite uma avaliação geral e, a partir dessa, a proposição de políticas públicas. E a segunda, na forma de uma tabela, apresenta a interpretação pedagógica, ou seja, a descrição das habilidades de leitura desenvolvidas em cada nível. Ao final estão disponibilizados links para acesso às matrizes de referência e as escalas de proficiência estarão anexadas a este trabalho.

Ao longo deste artigo, iremos analisar brevemente o resultado das avaliações do SAEB, no Ensino Médio, nas cinco últimas edições do exame acima citado, com um olhar para os índices de crescimento dos níveis de proficiência, que entendemos como desenvolvimento das habilidades leitoras. Também com um olhar comparativo entre os resultados apresentados ao final do Ensino Fundamental e final do Ensino Médio, na última edição do teste. Exploraremos alguns conceitos que julgamos importantes, tais como alfabetização, letramento, leitura e leitor proficiente, alguns de modo breve e outros com um pouco mais de profundidade. Discutiremos ainda a aprendizagem significativa, por entendermos que o sucesso da aprendizagem de todos os conteúdos deve se desenvolver de forma significativa, para ser efetivamente apreendida pelo sujeito estudante. Por fim sugerimos uma sequência didática, que virá anexa, como uma sugestão de organizar conteúdos e tornar o ensino da leitura mais efetivo, contextualizado e profícuo na formação de hábitos de compreensão e produção de textos, contribuindo para o aumento da proficiência e da compeUmaência leitora de estudantes do Ensino Médio.

 

Uma breve análise dos resultados do SAEB

 

O teste de língua portuguesa do saeb tem como foco a leitura e seu objetivo é verificar se os alunos são capazes de apreender o texto como construção de conhecimento em diferentes níveis de compreensão, análise e interpretação. A alternativa por esse foco parte da proposição de que ser competente no uso da língua significa saber interagir, por meio de textos, nas mais diferentes situações de comunicação. É uma atividade complexa que exige do leitor demonstrar habilidades como reconhecer, identificar, agrupar, associar, relacionar, generalizar, abstrair, comparar, deduzir, inferir, hierarquizar. (Relatório SAEB 2017, pág. 23)

A alternativa por esse foco parte da proposição de que ser competente, proficiente, no uso da língua significa saber interagir, por meio de textos, especialmente da leitura destes, nas mais diversas situações comunicativas e âmbitos sociais. Sobre esse prisma podemos dizer que o Saeb avalia índices de letramento dos estudantes brasileiros?

A escala de proficiência do Saeb em língua portuguesa é organizada em oito níveis de desempenho, a visualização desses níveis facilita que entendamos o crescente de complexidade que vimos falando até aqui. Pois na descrição dos níveis veremos que habilidades que no 5º ano de ensino fundamental são descritas no nível 4, para o 9º ano do ensino fundamental corresponderiam ao nível 3 e para o 3º ano do ensino médio ao nível 2 da escala. 

Vejamos os resultados médios considerando o índice nacional: a- Evolução dos níveis de proficiência nos últimos cinco exames realizados:

Ano de Escolaridade

Anos de realização dos exames e Proficiências médias

2009

2011

2013

2015

2017

5º ano EF

184

191

196

208

214,5

9º ano EF

244

245

246

252

258,4

3º ano EM

269

269

264

267

267,6

Fonte: Tabela elaborada pelos autores com dados extraídos da Edição 2015 de Resultados do SAEB e do Relatório SAEB 2017.

Os dados expostos na tabela permitem uma visão longitudinal dos resultados das avaliações aplicadas pelo Saeb. Confirmam o que dissemos acima: sobre haver uma maior evolução das aprendizagens das habilidades leitoras até o 5º ano do Ensino Fundamental. Observamos também que, no Ensino Médio, ocorre uma queda no desempenho dos alunos, com leve recuperação nas duas últimas edições da prova, que, no entanto, manteve os resultados praticamente inalterados, indicando que  não está havendo ganho pedagógico, ou seja, a escola, de modo generalizado, por que estamos analisando a proficiência média do país, não está ampliando as aprendizagens das competências leitoras.

b- Análise vertical das proficiências com identificação e descrição dos níveis de proficiência

Ano      de

Escolaridade

Proficiência Média

Nível    de

Proficiência  

Descrição do Nível

5º ano EF

214,5

Nível     4          -

Desempenho maior ou igual a 200 e menor que

225

Além das habilidades anteriormente citadas, os estudantes provavelmente são capazes de: identificar informação explícita em sinopses e receitas culinárias. Identificar assunto principal e personagem em contos e letras de música. Identificar formas de

 

 

 

representação de medida de tempo em reportagens.  Identificar assuntos comuns a duas reportagens. Identificar o efeito de humor em piadas. reconhecer sentido de expressão, elementos da narrativa e opinião em reportagens, contos e poemas.

Reconhecer relação de causa e consequência e relação entre pronomes e seus referentes em fábulas, poemas, contos e tirinhas. Inferir sentido decorrente da utilização de sinais de pontuação e sentido de expressões em poemas, fábulas e contos. Inferir efeito de humor em tirinhas e histórias em quadrinhos.

9º ano EF

258,4

Nível     3

Desempenho maior ou igual a 250 e menor que

275

Além das habilidades anteriormente citadas, os estudantes provavelmente são capazes de: localizar informações explícitas em crônicas e fábulas. Identificar os elementos da narrativa em letras de música e fábulas. reconhecer a finalidade de abaixo-assinado e verbetes. reconhecer relação entre pronomes e seus referentes e relações de causa e consequência em fragmentos de romances, diários, crônicas, reportagens e máximas (provérbios). Interpretar o sentido de conjunções e de advérbios e as relações entre elementos verbais e não verbais em tirinhas, fragmentos de romances, reportagens e crônicas. Comparar textos de gêneros diferentes que abordem o mesmo tema. Inferir tema e ideia principal em notícias, crônicas e poemas. Inferir o sentido de palavra ou expressão em história em quadrinhos, poemas e fragmentos de romances.

3º ano EM

267,6

Nível     2

Desempenho maior ou igual a 250 e menor que

275

Além das habilidades anteriormente citadas, os estudantes provavelmente são capazes de: reconhecer a ideia comum entre textos de gêneros diferentes e a ironia em tirinhas; reconhecer relações de sentido estabelecidas por conjunções ou locuções conjuntivas em letras de música e crônicas;  reconhecer o uso de expressões características da linguagem (científica,  profissional etc.) e a relação entre pronome e seu referente em artigos e reportagens; inferir o efeito de sentido da linguagem verbal e não verbal em notícias e charges.

Fonte: Tabela elaborada pelos autores com base nos dados descritos do Relatório do SAEB 2017 e descrição dos níveis na escala de proficiência.

 

Observamos que, à medida que se avança na escolarização, novos gêneros textuais vão sendo inseridos na avaliação, assim como também se inserem os estudos dos aspectos formais da língua, coerente com o que se espera no desenrolar das aprendizagens. À medida que, por meio das experiências escolares e extraescolares, se tem acesso a uma gama mais variada de textos, de situações sociais de uso da leitura e também da compreensão dos aspectos formais/gramaticais que organizam a língua e por conseguinte os textos, a avaliação incorpora essa variação e amplia o seu repertório de textos e de conteúdos.  

O Relatório do Saeb apresenta gráficos nos quais podemos analisar os resultados por unidades da federação, a distância entre o menor e o maior desempenho, as variações sofridas por interferência de fatores sócio-econômicoculturais, a análise comentada de itens, entre outras importantes reflexões. Para este trabalho, interessa-nos a confirmação, através da descrição do nível de proficiência no qual se encontram a maioria dos alunos brasileiros do Ensino Médio, de que a escola não está sendo capaz de formar leitores competentes, proficientes, capazes de utilizar adequadamente a leitura em seu dia-a-dia.

Neste sentido, refletimos que a tarefa de ensinar a ler talvez não devesse ficar apenas a cargo da escola, pois acreditamos, assim como Freire, que a leitura do mundo deve preceder a leitura da palavra e mesmo de que sem a primeira a segunda não faria sentido. Daí a necessidade de desenvolvermos práticas de leitura contextualizadas e cheias de sentido, de significado e porque não dizer, de afetividade, superando assim o caráter apenas utilitário que muitos veem nas aprendizagens escolares. Sobre isso trazemos aqui as palavras do próprio Freire:

A um ponto, porém, referido várias vezes neste texto, gostaria de voltar, pela significação que tem para mim a compreensão crítica do ato de ler e, consequentemente, para a proposta de alfabetização a qual me consagrei. Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Na proposta a que me referi acima este movimento do mundo à palavra e da palavra ao mundo está sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos. De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevêlo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente. (Freire, 2006, pág. 20)

O que Freire nos faz aqui é um convite. Um convite para que as práticas de leitura na escola sejam vivas, prazerosas e significativas, em todos os sentidos que couber a esta palavra. Por acreditarmos nisso, seguimos ampliando a reflexão acerca de conceitos importantes, entre eles destacamos o de alfabetização e o de letramento, considerando que este amplia o conceito daquele. 

Alfabetização e letramento

Para esta reflexão será importante partimos do conceito de alfabetização com vistas a conhecermos e entendermos seu significado, usos e evolução. É comum, na sociedade e mesmo entre profissionais da educação, o entendimento de que a alfabetização é o processo de ensinar a ler e escrever, nessa perspectiva, todo aquele que sabe ler e escrever é alfabetizado. 

Soares (2014), no entanto, aponta que a partir da década de 1980, o conceito de alfabetização passou a ser discutido entre profissionais do ensino e da educação, porque as demandas crescentes das sociedades grafocêntricas tornaram este entendimento de sujeito alfabetizado insuficiente, fazendo necessário sua ampliação. Destarte acrescentou-se ao saber ler e escrever o “uso competente da leitura e da escrita nas situações sociais em que a língua escrita esteja presente.” Esta habilidade acrescentada ao entendimento do que seria a alfabetização equivale ao que chamamos atualmente de letramento. Nesse sentido a alfabetização compreenderia que o sujeito alfabetizado, além de dominar as técnicas da leitura e da escrita, usaria tais técnicas socialmente identificando as situações e as formas de fazê-lo no seu cotidiano, conforme preconizou Paulo Freire acerca da alfabetização. Nesse sentido 

(...) logo se reconheceu que essas duas competências – de um lado, saber ler e escrever, de outro lado, saber responder adequadamente às demandas sociais de uso da leitura e da escrita – envolviam processos linguísticos e cognitivos bastante diferentes; como consequência, passou-se a designar por uma outra  palavra, letramento, o desenvolvimento de habilidades de uso social da leitura e da escrita, e a designar com a palavra alfabetização especificamente a aprendizagem de um sistema que converte a fala em representação gráfica, transformando a língua sonora – do falar e do ouvir – em língua visível – do escrever e do ler: a aprendizagem do sistema alfabético. Assim, a alfabetização, atualmente, é entendida como a aprendizagem de um sistema de representação da cadeia sonora da fala pela forma gráfica da escrita – o sistema alfabético – e das normas que regem seu emprego (Soares, 2014). 

Atualmente, embora se entenda a distinção entre a alfabetização e o letramento existe a concordância de que estes são complementares e interdependentes, visto que a aprendizagem da leitura deve ser considerada como uma totalidade e tratar a aquisição do sistema de escrita de modo dissociado do uso prático e social da leitura e da escrita acarretaria numa compreensão distorcida, pela criança, da “natureza e das funções sociais da língua escrita em nossa cultura.” 

Dessa forma, é importante discutir um pouco mais acerca do letramento, já que, em sociedades grafocêntricas, pressupõe-se uma pessoa letrada aquela que atua socialmente a partir de práticas de leitura e de escrita.

 

 

Letramentos

 

Embora o termo letramento seja usado em diferentes campos do saber, o tomaremos aqui na perspectiva do ensino. Entendemo-lo como um termo que surge da necessidade de nomear processos que se fazem essenciais mediante a ampliação das demandas sociais de uso da língua, das habilidades de ler e escrever.  

Soares esclarece ainda que a necessidade de um novo conceito se justifica porque no uso corrente da língua portuguesa e no entendimento da maioria da população o termo alfabetização refere-se restritamente a “aprendizagem do sistema alfabético-ortográfico e das convenções para o seu uso: a aprendizagem do ler e do escrever”(2014), ou seja, o processo de decodificação e codificação da língua. E a sua ressignificação “seria infrutífera pela dificuldade, ou mesmo impossibilidade, do ponto de vista linguístico, de intervir artificialmente em um significado já consolidado da língua” (2014).

Soares, define o contexto em que o termo letramento foi introduzido no Brasil:

Nos anos 1980, os limites do ensino e da aprendizagem da língua escrita se ampliam: em decorrência do desenvolvimento social, cultural, econômico, político em nosso país durante o século XX, ganham cada vez maior visibilidade as muitas e variadas demandas de leitura e de escrita nas práticas sociais e profissionais, gerando a necessidade de mais avançadas e diferenciadas habilidades de leitura e de escrita, o que exigiu, consequentemente, reformulação de objetivos e introdução de novas práticas no ensino da língua escrita na escola, de que é exemplo a grande ênfase que se passa a atribuir ao desenvolvimento de habilidades de compreensão leitora e de produção de textos de uma gama ampla e variada de gêneros textuais e de usos sociais da língua escrita. É então que surge no contexto educacional o termo letramento, que inicialmente se associou ao termo alfabetização, para designar uma aprendizagem inicial da língua escrita entendida não apenas como a aquisição do sistema alfabético e suas convenções, mas também como a introdução da criança às práticas sociais da língua escrita, ou, mais amplamente, à cultura do escrito.(Soares, 2014)

 

Nesse sentido, somente saber decodificar e codificar a língua não atende aos requisitos conceituais do termo letramento. É necessário não apenas decodificar sons e letras, mas entender os significados do uso da leitura e da escrita em diferentes contextos. Justo e Rubio (2013, p. 02) dizem que “letrado não mais é só aquele que é versado em letras ou literaturas, e sim, aquele que além de dominar a leitura e a escrita, faz uso competente e frequente de ambas.” Também não basta apenas juntar letras e reunir palavras para compor frases, “deve-se compreender o que lê, assimilar diferentes tipos de textos e estabelecer relações entre eles”, Soares (2010, p.21). Esse é o conceito de alfabetização proposto por Paulo Freire, que, infelizmente, a escola brasileira não conseguiu entender. E foi preciso ampliar o conceito para outra nomenclatura para que se abarcasse aquilo que já está posto no conceito freiriano.  

Justo e Rubio (2013) afirmam que é preciso tornar os estudantes capazes de compreender o significado da aprendizagem da leitura e escrita para usá-la no seu contexto de forma a atender às exigências da própria sociedade. O letramento dos alunos é importante para a conquista da cidadania, pois o indivíduo letrado é capaz de instruir por meio da leitura e selecionar, entre diversas informações, aquela que mais lhe interessa e é útil à sua vida. Nessa perspectiva, as autoras ainda asseguram que ensinar, na perspectiva do letramento, significa não somente orientar o aluno a se tornar um analista de sua língua, mas, sobretudo, a tornar-se um usuário consciente de que cada habilidade linguística tem um espaço específico de uso na sua lida diária.

Sendo assim, para o desenvolvimento das habilidades leitoras dos educandos faz-se necessário promover e orientar a participação destes em práticas sociais de uso da leitura e da escrita, com gêneros textuais diversos, de forma criativa, descobridora, crítica, autônoma e ativa. Para Rojo (2009, p.98) “um dos objetivos principais da escola é possibilitar que os alunos participem de várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita na vida, de maneira ética, crítica e democrática”.

O letramento deve possibilitar a formação de sujeitos críticos. Freire (1991) vê na educação a possibilidade de despertar nos estudantes a consciência crítica para a sua emancipação. É essencial, antes de ensinar a ler e escrever, propiciar aos indivíduos o engajamento e problematização de sua realidade e a posicionar-se criticamente. Ler e escrever devem ultrapassar as habilidades técnicas, o uso da linguagem tem uma ação transformadora no indivíduo, uma vez que aumenta a sua percepção do mundo e possibilita a transformação social. Para liberta-se da opressão, o primeiro passo é possuir consciência crítica.

Pelas reflexões feitas até o momento é possível perceber que o conceito letramento pode ser utilizado no plural. Para Rojo (2009), os letramentos são plurais, pois cada prática social estabelece uma forma de letramento específica, no qual para cada caso são exigidas habilidades específicas. Entretanto, pode se afirmar que quanto mais complexas forem as sociedades, mais complexos serão os gêneros textuais circulando. Nesse caso, também serão plurais os letramentos e mais exigentes serão as habilidades para encadear os conhecimentos, aplicar a leitura e a escrita e atuar na sociedade.

Assim, os letramentos plurais culminam no que podemos denominar de

Letramentos Múltiplos. Cardoso e Silva (2016. p. 242) afirmam que “a definição de Letramentos Múltiplos está associada ao multiculturalismo, e envolve discussões sobre a língua, etnia, gênero, rede de práticas sociais e discursos ideológicos”. As mesmas autoras informam que o letramento não pode ser visto como neutro nem centrado apenas no indivíduo, mas, sobretudo, na prática social e, assim, entranhado de pluralidade e notado discursivamente por relações de estruturas de poder.

Em meados da década de 90, nos Estados Unidos, um grupo de professores e pesquisadores, denominado Grupo de Nova Londres, cunham um outro conceito, chamado Multiletramentos. O conceito de multiletramentos vai além das noções de letramentos e letramentos múltiplos, pois para Rojo (2012), o novo conceito abarca as práticas multiculturais e multissemióticas, com ênfase, para aquelas demandadas pela diversidade cultural e pelo novo agrupamento social ao qual estamos imersos: o das tecnologias digitais que nos amplia uma gama variada de mídias. O termo abarca também a multimodalidade – hipertextos, imagens, vídeo, animações – o que possibilita a reinvenção de formas de expressão, além do que podíamos ter, na forma escrita no papel, ou seja, nos ambientes de aprendizagem de hoje, é essencial a suplementação da tradição da leitura e escrita com representações multimodais, sobretudo, com os novos meios digitais.

Dessa forma, Rojo (2012) esclarece os motivos pelos quais o multiletramento exige do indivíduo, um comportamento crítico, que coloque em discussão, de maneira respeitosa, as ideias que ele possui contato. O conhecimento está divulgado nas mídias de diversas formas. O sujeito, para construí-lo, deve possuir autonomia.

A mesma autora assevera que a leitura e a escrita, no contexto atual, passaram de fins, a meios para as práticas sociais e uso dos conhecimentos adquiridos. Além de ensinar a leitura e a escrita aos alunos, faz-se importante propiciar oportunidades de aprendizagem a partir das tecnologias que fazem parte dos novos conhecimentos e interação. Assim, é essencial que se explore os variados gêneros do discurso, utilizando tanto a multimodalidade quanto a multiculturalidade na qual o indivíduo está imerso.

Merece destaque, dessa forma, uma investigação acerca daquilo que subjaz o conceito de leitura, uma vez que ler a palavra ultrapassa a leitura do código, ler é uma ação que compreende a interpretação do mundo, de contextos sociais, por meio da língua. A língua e o mundo são indissociáveis quando se pensa em interpretação.  

 

Leitura

À medida que tratamos dos termos alfabetização e letramento sentimos a necessidade de trazer para esse trabalho um conceito de leitura, coerente com a proposta de trabalho que propomos para desenvolvê-la e que se delimitará ao final. Pois assim como o entendimento de alfabetização fica por vezes restrito ao ensino das técnicas para ler e escrever, a leitura é também, por vezes, restritamente entendida como a capacidade de decodificação do código escrito. Essa restrição é compreensível, uma vez que para ler é necessário decodificar um código, seja ele a palavra, um desenho, uma imagem, uma situação, o mundo. 

Para ampliarmos essa definição apoiamo-nos em Bicalho

(...)a leitura é uma atividade complexa, em que o leitor produz sentidos a partir das relações que estabelece entre as informações do texto e seus conhecimentos. Leitura não é apenas decodificação, é também compreensão e crítica. (...) A decodificação é uma parte da leitura, na qual o leitor, basicamente, junta letras e forma sílabas; junta sílabas e forma palavras e junta palavras para formar frases. (...) Ao compreender o texto, o leitor é capaz de apreciar o que ele diz, é capaz de se posicionar, é capaz de realizar a crítica ao que é dito.

A leitura é tanto uma atividade cognitiva quanto uma atividade social.  Como atividade cognitiva, pressupõe que, quando as pessoas leem, estão executando uma série de operações mentais (como perceber, levantar hipóteses, localizar informações, inferir, relacionar, comparar, sintetizar, entre outras) e utilizam estratégias que as ajudam a ler com mais eficiência. Como atividade social, a leitura pressupõe a interação entre um escritor e um leitor, que estão distantes, mas que querem se comunicar. (Bicalho, 2014)

 

Das palavras de Bicalho depreendemos que uma leitura significativa só se efetiva na medida em que o conteúdo do texto lido é compreendido pelo sujeito que lê, extrapolando a decodificação. Complementarmente entende-se que, embora um ato aparentemente solitário, a leitura é primordialmente uma ação comunicativa, que só se concretizará na tomada de sentido pelo leitor, do conteúdo lido. Se não ocorrer a compreensão, não ocorrerá o sentido e o texto não alcançará o objetivo para o qual foi escrito.

 

Leitor Proficiente

Uma das bases que tomamos para nos referenciar no trabalho sobre leitura foram instrumentos utilizados pelo Saeb, especialmente as Matrizes de Referência e as Escalas de Proficiência. Sabendo que o Saeb, em língua portuguesa, avalia precipuamente habilidades de leitura, sentimos a necessidade de esclarecermos sobre o que caracteriza um leitor que demonstre ser proficiente em suas leituras. O que é ou o que caracteriza um leitor proficiente. De acordo com Mata, 

Leitor proficiente é aquele que não só decodifica as palavras que compõem o texto escrito, mas também constrói sentidos de acordo com as condições de funcionamento do gênero em foco, mobilizando, para isso, um conjunto de saberes (sobre a língua, outros textos, o gênero textual, o assunto focalizado, o autor do texto, o suporte, os modos de leitura). No processamento do texto, portanto, são articulados os elementos linguísticos que compõem a materialidade desse texto e o contexto de produção e de leitura. Dito de outro modo: o leitor deve considerar: quem escreveu o texto? para quem? com que finalidade? para circular onde?  E, ao mesmo tempo, pensar: para que vou ler o texto? o que preciso saber para entendê-lo? o que espero encontrar? (Mata, 2014)

 

Entendemos então que leitor proficiente é aquele que interage com o texto, relacionando-o com outros conhecimentos e experiências. Que ao escolher um texto para lê e realizar a leitura, o faz com intencionalidade. Busca compreensão para além do que está escrito, estabelece relações com os contextos de produção do texto lido e com o seu contexto e objetivo de leitura. Sobre a necessidade de reconhecimento dos contextos e da intencionalidade na leitura, estabelecemos relação com Freire e seu postulado de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, pois de acordo com Mata, 

O aluno vai construindo sua proficiência em leitura à medida que aciona conhecimentos prévios sobre o assunto em pauta, o gênero, o autor, faz inferências, levanta hipóteses, faz antecipações sobre o que vai ser tratado no texto e o modo como vai ser tratado o tema. Assim, ele vai se transformando em um leitor capaz de processar não só o que é dito no texto, mas também aquilo que está nas entrelinhas, os implícitos. (Mata, 2014)

 

Por isso, de modo simples e direto podemos dizer que um leitor proficiente é um sujeito letrado no sentido de que faz uso competente das práticas de leitura e escrita, nas diversas situações comunicativas e sociais das quais participa em seu cotidiano, dentro e fora da escola. Um sujeito que lê com intencionalidade.

 

Aprendizagem Significativa

 

No cenário educacional atual, sob o ponto de vista do processo de ensinoaprendizagem, as escolas continuam com resquícios da concepção pedagógica tradicional, na qual se expõe uma grande quantidade de informações com pouca ou nenhuma qualidade, na maioria das vezes, sem significância para o aluno. Tais informações servem momentaneamente e são descartadas após a prova, não significam e sequer a alteram as concepções espontâneas que os alunos trazem de seu cotidiano.

De fato, para que a aprendizagem ocorra, ela deve ser significativa. Isso exige que esse fenômeno seja visto não somente no entendimento dos sentidos, como também da compreensão de significados, deve relacionar-se às experiências anteriores e às vivências pessoais dos alunos, deve permitir a formulação de problemas desafiantes. A aprendizagem significativa compreende estratégias que incentivem o aprender mais, o estabelecimento de diferentes tipos de relações entre fatos, objetos, acontecimentos, noções e conceitos; desencadeia modificações de comportamentos e contribui para a utilização do que é aprendido em diferentes situações. Piletti e Rossato (2019) contribuem com essa ideia, ao afirmarem que uma aprendizagem, quando realizada de modo significativo, envolve o pensar e o sentir, e dificilmente é esquecida; ocorre quando o aluno percebe o conteúdo como importante para seus próprios objetivos. Quando a aprendizagem é iniciada pelo aluno e abrange toda a sua pessoa, no que tange a sentimento e intelecto, ela se torna mais duradoura.

Convém lembrar que a aprendizagem significativa, na teoria de David Paul Ausubel, pensada no contexto escolar, leva em consideração a história do sujeito e ressalta o papel dos docentes na proposição de estratégias que auxiliam na aprendizagem. Moreira afirma que “aprendizagem significativa é o processo através do qual uma nova informação (um novo conhecimento) se relaciona de maneira não arbitrária e substantiva (não literal) à estrutura cognitiva do aprendiz” (MOREIRA,

2011, p. 26). Esse mesmo autor, acrescenta que há duas condições para que a


aprendizagem significativa ocorra: o conteúdo a ser ensinado deve ser parcialmente revelador e o aluno precisa possuir disposição a relacionar o material de maneira consistente, ou seja, substantiva e não arbitrária. No entanto essas condições nem sempre são levadas em conta pelas escolas.  

Dessa forma, a preocupação constante, segundo Ausubel citado por Moreira (2011), é que ensinar sem levar em conta os conhecimentos prévios dos alunos se torna um esforço vão, uma vez que o novo conhecimento não tem onde ancorar. A aprendizagem significativa, envolve a interação de uma estrutura cognitiva de conhecimento específica denominada de subsunçor. Moreira esclarece que:

O “subsunçor” é um conceito, uma idéia, uma proposição já existente na estrutura cognitiva, capaz de servir de “ancoradouro” a uma nova informação de modo que esta adquire, significado para o indivíduo (isto é, que tenha condições de atribuir significados a essa informação. (MOREIRA, 2011; p. 15)

 

As cognições no cérebro humano, segundo Ausubel citado por Moreira (2011), se organizam e formam uma hierarquia conceitual, na qual os elementos mais específicos de conhecimento são ligados e assimilados a conceitos mais gerais. Uma hierarquia de conceitos representativos de experiências sensoriais de um indivíduo significa para ele, uma estrutura cognitiva. Nesse sentido, considera-se que a assimilação de conhecimentos ocorre sempre que uma nova informação interage com outra já existente na estrutura cognitiva, mas não como um todo; o processo contínuo de aprendizagem cognitiva acontece apenas com a integração de conceitos primordiais.

Tendo em vista os aspectos observados, pode-se dizer que não adianta desenvolver uma aprendizagem divertida se ela ocorrer de forma automática, sem promover a reflexão e a negociação de significados, indo além do entendimento de sentidos, ou seja, compreender os sentidos das coisas, dos conhecimentos é muito subjetivo e negociar significados é possibilitar ao aluno uma aprendizagem ampla, completa e duradoura a partir daquilo que ele já compreende.

Em contraposição, ainda temos uma escola que treina o aluno para memorizar e não para pensar e relacionar conhecimentos, fenômenos, fatos, conceitos. Dessa forma, parece que existe uma controvérsia, uma vez que a retórica sobre a função da escola, bem como as atribuições dos professores, na atualidade, seria propiciar condições para que os alunos participassem da construção do conhecimento, embora na prática não seja bem assim. O ensino ainda continua de maneira tradicional, de modo que os estudantes ainda recebem passivamente as informações, com pouco ou nenhum sentido para eles, que estão lá para aprender. Quando se desenvolve o trabalho educativo na perspectiva da aprendizagem significativa, o professor não oferece conceitos prontos para o aluno, o conteúdo é discutido de forma contextualizada e levando-se em conta os conhecimentos prévios dos alunos, para que se atinja os seus subsunçores.

Além disso, Moreira informa que

[a]tualmente as palavras de ordem são aprendizagem significativa, mudança conceitual, ensino centrado no aluno e construtivismo. Um bom ensino deve ser construtivista, estar centrado no estudante, promover a mudança conceitual e facilitar a aprendizagem significativa. É provável que a prática docente ainda tenha muito do behaviorismo, mas o discurso é cognitivista/construtivista/significativo. Quer dizer, não pode ter havido, ainda uma verdadeira mudança conceitual nesse sentido, mas a retórica mudou. (MOREIRA, 2011; p. 25)

 

Ainda convém lembrar que promover a aprendizagem significativa, exige um certo rigor metodológico. Ensinar a favor do construtivismo não é deixar os alunos à revelia, aprendendo de qualquer jeito. O educador na sua prática educativa deve reforçar a capacidade crítica do aluno, sua curiosidade e sua insubmissão, deve propor estratégias a partir das quais se problematize, questione, elabore novos conceitos a partir de conceitos já compreendidos e internalizados. Paulo Freire diz que “uma de suas tarefas primordiais é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que devem se “aproximar” dos objetos cognoscíveis” (FREIRE, 1996, p. 13). Porém, essa maneira rigorosa de promover o ensino-aprendizagem não é transferir o conhecimento para o aluno de forma que ele passivamente receba. O mesmo autor acrescenta que “essas condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores, instigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes” (FREIRE, 1996, p. 13). Vale lembrar que esse rigor no método advém do planejamento dessas estratégias de forma sequencial e gradativa para que se reconheça a ampliação dos diferentes tipos de conteúdos.  

Além da rigorosidade metódica, a aprendizagem deve fazer sentido para o aluno, ou seja, se a aprendizagem ocorrer de forma interativa, sem sombra de dúvida ele construirá um conhecimento mais consistente e de difícil esquecimento. O professor, de uma forma ou outra, deverá ser um motivador constante para que a aprendizagem se efetive de maneira relacional. Para Klausen “precisamos entender que nada é mais motivador do que sentir-se capaz. Quando a aprendizagem é significativa e a avaliação uma atividade formativa, ela estará sempre a serviço do sucesso” (KLAUSEN, 2018, p. 6406). Nessa perspectiva, é necessário discutir o uso que se faz da avaliação. Ela deve ser formativa e avaliar não somente o que o aluno aprendeu como também a forma de ensinar do professor, ademais, o discente terá de possuir a autonomia para realizar sua auto-avaliação. Só através desta o aprendiz poderá conscientizar-se de que é o seu principal agente avaliador.  

Por todos os aspectos observados, percebe-se que, quando se trabalha com a perspectiva da aprendizagem significativa, apoia-se na construção do aprendizado humano e o faz agregando pensamentos, sentimentos e, sobretudo, ações cognitivas e metacognitivas, as quais promovem o crescimento intelectual, pessoal e social. Logo, deve-se considerar a experiência de vida do aluno e seu conhecimento de mundo, deve-se respeitar as diferenças, os limites de cada um, fundando-se na generosidade e afetividade, bem como nos conhecimentos prévios.  

 

Sequência Didática

Considerando a perspectiva como a leitura e o letramento foram tratados nesse trabalho e ainda a importância que o desenvolvimento dessas aprendizagens se dê de forma significativa, percebemos nas sequências didáticas uma estratégia pertinente e adequada para o alcance desses objetivos. As sequências didáticas são definidas por Zabala (1998, p. 18) como “um conjunto de atividades ordenadas, estruturadas e articuladas para a realização de certos objetivos educacionais, que tem um princípio e um fim conhecidos tanto pelos professores como pelos alunos”.

Zabala (1998) afirma que o trabalho com Sequência Didática satisfaz de maneira adequada, muitas das condições que fazem com que a aprendizagem possa acontecer de maneira significativa, porque pressupõe a organização sequencial e ampliadora da compreensão de um determinado tipo de conteúdo. É uma maneira inovadora de trabalhar, pois utiliza-se do referencial construtivista, no qual os alunos participam ativamente do processo de construção do conhecimento; como também considera a tipologia dos conteúdos, referindo-se aos conceituais, os que se referem


ao conjunto de fatos, objetos ou símbolos que têm características comuns, aos procedimentais, os que se referem às regras, às técnicas, os métodos, as destrezas ou habilidades e as estratégias e, aos atitudinais, que podem agrupar os valores, atitudes e normas; além do enfoque humanista que propicia o desenvolvimento da autonomia dos estudantes.

 

Considerações Finais

 

Como já mencionado neste trabalho, a dificuldade em leitura e escrita é motivo constante de preocupação entre os educadores. Um grande número de alunos conclui o Ensino Médio, sem sequer, compreender o que leem, mesmo que de forma explícita, capacidade básica para leitores iniciantes.

Deste modo, o desafio é grande e requer um trabalho engajado de todos os profissionais da educação, mas principalmente por parte dos professores, que são importantes atores do processo pedagógico. Ademais, é compreensível que, no desenvolvimento das habilidades leitoras, é necessário que o aluno (leitor) desenvolva, ao longo da sua escolarização básica, recursos que lhe permitam avançar de um nível mais básico de suas habilidades de leitura, no qual é capaz de decodificar e entender o significado de palavras e frases simples, para um nível mais complexo de compreensão, em que, por exemplo, consiga localizar informações, realizar inferências a partir delas, diferenciar partes principais de partes secundárias de um texto, ou mesmo identificar ironias, entre outras habilidades.

É importante que todos, nas escolas – e não somente professores dos anos de alfabetização –, estejam conscientes de que a leitura pode ser ensinada em todas as disciplinas e em todos os anos de escolaridade, isto é, inúmeras estratégias de leitura a partir das várias disciplinas podem ser ensinadas no sentido de ajudar na formação da habilidade leitora dos estudantes. Outra consideração para quem ensina é a importância de orientar o leitor a ler com objetivos determinados. Isto é, ler para interagir com um autor à distância por meio do texto escrito, buscando prazer, ou distração, informação ou um novo conhecimento. Os diferentes gêneros textuais se prestam a diferentes objetivos de leitura, e para cada um há uma estratégia mais adequada e eficaz. Por exemplo, ler um cardápio num bar, ou ler um site buscando informações, ou ler um livro didático para estudar e aprender, ou ler uma revista em quadrinhos para se distrair. 

Cada um desses processos revela necessidade de habilidades específicas e por isso requer procedimentos diferentes. Há grandes vantagens em se pensar a leitura desse modo. A principal delas é a de mostrar que existem formas para aumentar a competência em leitura ao longo da vida, isto é, que o ensino de leitura não é uma etapa pontual que se esgota na alfabetização. Paulo Freire já apontava para isso, quando conceituou alfabetização. A escola brasileira, no entanto, não compreendeu o conceito freiriano e precisou de uma nova palavra – letramento – para abarcar habilidades que estão intrinsecamente ligadas ao ato de ler.  

Com vistas a todo o exposto, propomos o desenvolvimento de uma Sequência Didática na qual priorizamos o trabalho com os gêneros textuais, verbete e notícia permeados pelo tema Ética. O trabalho com gêneros textuais contribui para uma nova perspectiva no processo de leitura, de escrita e de produção textual, contribuindo para tornar o aluno um leitor e escritor competente e crítico. Os textos que foram escolhidos procuram dentro das possibilidades atender às necessidades dos educandos, apresentando finalidades distintas e definidas, visando ao desenvolvimento das habilidades leitoras dos estudantes. As atividades planejadas para cada gênero são iniciadas sempre com uma motivação e a identificação dos conhecimentos que os alunos já possuem, coerente com a perspectiva da aprendizagem significativa. Da mesma forma buscamos aliar a leitura com a produção escrita, sempre com um objetivo de comunicação. Desenvolvemos atividades de interpretação da palavra contextualizada no texto e no contexto social do estudante. Assim aliamos a leitura e a escrita como conhecimentos necessários e complementares para as diversas situações sociais das quais participam.  

Esperamos com esse trabalho contribuir, em alguma medida para a redução das dificuldades e consequente melhoria das habilidades leitoras dos alunos do ensino médio. As atividades foram pensadas de modo que possam ser replicadas e ou adaptadas a diversas realidades. Que possam também inspirar professores a criarem as suas próprias sequências didáticas com vistas a aprendizagens significativas.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

 

BICALHO, DelaineCafieiro. Verbete Leitura in Glossário CEALE: Termos de Alfabetização Leitura e Escrita para educadores. Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/leitura Acesso em 31 de maio de 2020

BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).             Relatório      SAEB/2017. Brasília,         2019. Disponível em:http://portal.inep.gov.br/web/guest/educacao-basica/saeb/resultados Acesso em: 31 de maio de 2020.

_______ Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira

(INEP). Edição 2015 – ResultadosSAEB. Brasília, 2016. Disponível em: https://mail.google.com/mail/u/0/#sent/FMfcgxwHNgcXjHnvRWsgqCbLwrwNgjvg?pro jector=1&messagePartId=0.2 Acesso em: 31 de maio de 2020.

_______ Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - Diretoria de Avaliação da Educação Básica - INEP/DAEB. Nota Técnica. Disponível em: http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/nota_tecnica/2011/nota_tecnica _tri_enem_18012012.pdf Acesso em 31 de maio de 2020

CARDOSO, Chislene Moreira; SILVA, Maria Felícia Romeiro Mota. Letramentos e Multiletramentos: práticas de texto no Ensino Superior. Revista Virtual de Letras, v.08, nº 02, ago/dez, 2016.

FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: Em três artigos que se completam. Coleção – Questões da Nossa Época. Cortez Editora, 47ª edição. São Paulo, 2006.

_______, Paulo. Educação e Mudança. 18.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

JUSTO, Márcia Adriana Pinto da Silva; RUBIO, Juliana de Alcântara Silveira. Letramento: O uso da leitura e da escrita como prática social. Revista Eletrônica Saberes da Educação, Vol. 4, n.1, 2013.

KLAUSEN, Luciana dos Santos. Aprendizagem significativa: um desafio. VI Seminário Internacional Sobre Profissionalização Docente. UNIVALI- Santa

Catarina.2015.         Disponível    em: https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2017/25702_12706.pdf Acesso em: 31 de maio de 2020  

MATA, Maria Aparecida da. Verbete Leitor Proficiente in Glossário CEALE: Termos de Alfabetização Leitura e Escrita para educadores. Disponível em:

http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/leitor-proficiente Acesso em 31 de maio de 2020.

MOREIRA, Marco Antônio. O que é afinal aprendizagem significativa? Disponível em: http://moreira.if.ufrgs.br/oqueeafinal.pdf. Acesso em: 31 de maio de 2020.

PILETTI, Nelson; ROSSATO, Solange Marques. Psicologia da aprendizagem:Da teoria do condicionamento ao construtivismo. Editora Contexto: São Paulo, 2019.

ROJO, Roxane. Letramentos múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola Editoral, 2009.

______, Roxane; MOURA, Eduardo. Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola, 2012.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. 4ª ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.

________, Magda. Verbete Alfabetização in Glossário CEALE: Termos de Alfabetização Leitura e Escrita para educadores. Disponível em:

http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/glossarioceale/verbetes/alfabetizacao Acesso em 31 de maio de 2020

ZABALA, Antoni. A Prática Educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998.

 

PARA CONSULTA

Link para a Matriz de Referência do SAEB – Língua Portuguesa

http://download.inep.gov.br/educacao_basica/prova_brasil_saeb/menu_do_professor /o_que_cai_nas_provas/Matriz_de_Referencia_de_Matematica.pdf

Link para a Escala de Proficiência do SAEB – Língua Portuguesa / 3º ano do

Ensino Médio

http://download.inep.gov.br/educacao_basica/prova_brasil_saeb/escala/escal

a_proficiencia/2018/LP_3EM.pdf

 

 



[1] Professor e Supervisor Escolar em Riachinho (MG), com Licenciatura Plena em Normal Superior pela Unimontes – Montes Claros (MG), Licenciatura Plena em Física pela FINOM – Paracatu (MG), pós-graduação lato sensu em Supervisão Escolar pela UCAM – Rio de Janeiro (RJ) e cursando mestrado em Educação Profissional e Tecnológica pelo IFB – Brasília (DF).

[2] Pedagoga no IFNMG – Campus Arinos (MG), com Licenciatura Plena em Pedagogia pela Unimontes – Montes Claros (MG), pós-graduação lato sensu em Docência do Ensino Superior pela

PUC – MG, e cursando mestrado em Educação Profissional e Tecnológica pelo IFB – Brasília (DF). 

Nenhum comentário:

Postar um comentário