SANTAELLA, Lúcia. Cultura e artes do pós-humano: da
cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003.
Por: Belchior Ribeiro
Leite
No livro “Cultura e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura”,
publicado pela Editora Paulus em 2003, escrito por Lúcia Santaella, traz reflexões
sobre a cultura de forma geral, os vários tipos de cultura e as transformações
que foram ocorrendo em virtude da evolução da tecnologia – tudo transformou-se numa mistura, ou seja, não há uma fronteira
bem definida de um tipo de cultura para outro, melhor dizendo há uma
hibridização de culturas. O livro está organizado em quatorze capítulos, no
qual a autora inicia falando da cultura e aprofunda passando por conceitos
como: mídias, tecnologias, cibercultura, corpo cibernético, artes híbridas, pós-modernidade,
semiose do pós-humano, corpo cibernético etc, enfim, como se encontra na
realidade pós, e a arte como elemento do complexo mundo da cultura. Assim, em tempos
de incerteza, pretende repensar o humano neste alvorecer do vir-a-ser
tecnológico do mundo e os meios para esse pensamento vêm da história das novas
tecnologias, bem como as nanotecnologias; a filosofia; a psicanálise; a
comunicação e semiótica e sobretudo, a arte.
Para a autora, as definições de
cultura são numerosas. Um sinônimo de cultura é tradição, o outro é
civilização, mas seus usos se diferenciam ao longo da história. Um conceito
popular de cultura é o de refinamento, implicado na habilidade que alguém
possui de manipular certos aspectos da nossa civilização que trazem prestígio.
Portanto, são duas as concepções de cultura: a antropológica e a humanista. A concepção
antropológica é plural e relativista, o mundo está dividido em diversas
culturas, cada uma delas valiosas em si mesmo; na cultura humanista, algumas
pessoas têm mais culturas que outras e alguns produtos humanos, tais como artes
visuais, música, literatura; são mais culturais que outros.
Cabe ressaltar que, das duas
concepções de cultura, derivam os sentidos de cultura que se tornaram
correntes: o sentido lato, que descreve todos os aspectos característicos de
uma forma particular de vida humana; o sentido estrito é uma província das
humanidades, cujo objetivo é interpretar e transmitir às gerações futuras o
sistema de valores em função dos quais os participantes em uma forma de vida
encontram significado e propósito. Além disso, a autora defende a ideia de que
a cultura representa essencialmente as condições morais do indivíduo, enquanto
a civilização significa as convenções da sociedade e também, se a cultura é um
sistema “simbólico de formas”, então a semiótica é uma ciência da cultura por
excelência, pois ela é a ciência universal dos signos e dos símbolos.
Com o aparecimento explosivo dos
meios de comunicação de massa e outros recursos tecnológicos, tornou-se difícil
estabelecer distinções claras entre o popular, o erudito e o massivo. Junto a
isso, foi aumentando a tendência para os trânsitos e hibridismos dos meios de
comunicação entre si, criando redes de complementaridades chamadas cultura das
mídias. Nessa perspectiva, é a cultura como um todo que a cultura das mídias
tende a colocar em movimento, acelerando o tráfego entre suas múltiplas formas,
níveis, setores, tempos e espaços. Tudo na cultura foi virando uma mistura.
Nesse sentido, com o surgimento de novas formas de cultura, não levaram o desaparecimento
das culturas já existentes, e sim a diluição de suas fronteiras.
A palavra mídia foi se fixando em
função do crescimento acelerado dos meios de comunicação também mediados pelo
computador. São exemplos de novas mídias: a internet, os web sites, a
multimídia computacional, os jogos eletrônicos, os CD-roms, os DVDs, a
realidade virtual. Graças a essas novas e poderosas tecnologias a cultura se
tornou globalizada. Também em virtude da digitalização e compreensão dos dados,
todo e qualquer tipo de signo pode ser recebido, estocado, tratado e difundido
via computador.
O campo histórico da cultura
apresenta seis eras culturais: oral, escrita, impressa, de massa, das mídias e
digital. Todas as seis eras coexistem, convivem simultaneamente na
contemporaneidade. Quando surge uma nova tecnologia, elas sofrem reajustamentos
no papel social em que desempenham, mas continuam presentes. Desse modo, a
cibercultura, utilizada como sinônimo de cultura digital dispõe do ciberespaço
como ambiente de fluição, repasse e construção de cultura; além do mais, a
interface homem-máquina propicia perceber as comunidades virtuais e a
inteligência coletiva como consequência da própria cibercultura.
Observa-se que mais importante que o
efeito de fetiche das mídias é deslindar linguagens, os processos sígnicos que
habitam, transitam, são difundidos pelas mídias e sem os quais ficam em falta
as bases objetivas para se pensar as culturas e as formas de socialização que
lhes são próprias. As mídias são somente meios e a mediação primeira não vem
delas, mas dos signos, linguagem e pensamento, que elas veiculam. Com efeito,
nos novos ambientes comunicacionais têm-se: e-mails, chats, salas e/ou
ambientes virtuais, sites e links de informação, jogos etc; bem como as
comunidades virtuais. Efetivamente, é através da linguagem que o ser humano se
constitui como sujeito e adquire significância cultural. Logo, a cultura
digital forma-se múltiplas identidades no sujeito.
Com a expansão tecnológica que não
cessa de avançar, ocorre também o hibridismo no campo das artes, que também
podem ser chamados de processos de intersemiose – território das artes plásticas. Para os
fotógrafos, as tecnologias digitais substituíram completamente as tecnologias
analógicas – lentes óticas foram substituídas por câmeras digitais e virtuais,
filmes por discos, salas escuras por programas de computador.
A partir da revolução industrial
tem-se o fim da exclusividade do artesanato nas artes e o nascimento das artes
tecnológicas. A técnica é o saber fazer, a tecnologia avança além dela com o
auxílio de dispositivos maquínicos. Na nossa era pós-moderna, todas as artes se
confraternizam: desenho, pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalação e
todos os seus híbridos. Dos anos 90 para cá estamos vivendo uma nova revolução.
Trata-se da revolução digital e da explosão das telecomunicações virtuais.
A revolução digital a qual estamos
vivenciando permite perceber as transformações pelas quais o corpo humano está
passando. O corpo humano se tornou problemático e as inquietações sobre uma
possível nova antropomorfia tem estado no centro dos questionamentos sobre o
que é o ser humano no início do século XXI. Esse corpo, em virtude das
simulações com a vida artificial, por meio da tecnologia tem sido chamado de
biocibernético. Sendo assim, o estado da arte das invenções e ideias que foram
dando forma a esse corpo híbrido entre o orgânico e o maquínico e que
culminaram na convicção de que o ser humano já está imerso em uma era pós-biológica,
pós-humana. Diante disso, o neologismo ciborg (cib-ernético mais org-anismo)
designa os sistemas homem-máquina autorregulativos com a ideia de que uma nova
fronteira estava se abrindo através de uma ponte entre a mente e a matéria,
entre espaço interno e externo, ou seja, a hibridização humana. Portanto, temos
a realidade virtual, a comunicação global, a protética e a nanotecnologia, as
redes neurais, os algoritmos genéticos, a manipulação genética e a vida
artificial como exemplos de tecnologias pós-humanas.
Nesse entendimento, a relação do
humano com a natureza e com a sua própria natureza é uma relação mediada pelos
signos e pela cultura. As primeiras tecnologias sígnicas (escrita, desenho,
pintura), da comunicação e da cultura, já foram a fala e o gesto, isto é, desde
que o ser humano se constituiu como tal, nunca houve uma cisão entre o biológico
e o técnico. À luz da semiótica, as linhas divisórias entre o mundo natural e o
cultural, o biológico e o tecnológico se esfumam, podem perder toda a nitidez.
Destaca-se que o termo pós-humano
significa uma porção de coisas ao mesmo tempo. Pós-humano é a nanotecnologia, a
inteligência artificial, a robótica, a vida artificial etc. De fato, hoje somos
seres híbridos, biomaquínicos, biocibernéticos, corpos e mentes híbridos entre
a máquina e o orgânico, entre o silício e o carbono. Por conseguinte, à luz da
psicanálise, o pós-humano precisa ser pensado como uma realidade híbrida, não
apenas do humano com as máquinas, mas também com o inorgânico da natureza.
Por outro lado, o corpo, desde os
primórdios tem se tornado suporte da arte; os rituais, a dança e o teatro, como
também a escultura, o retrato, o auto-retrato e o nu feminino. Assim, por volta
dos anos 50 e 60 do século XX, os corpos vivos, quaisquer que fossem seus tipos
de atuação – mesmo que de forma exótica e em desacordo com os costumes e regras
atuais – eram, por si e em si mesmo, arte. Neste caso, o discurso visual da
arte, por volta dos anos 80 o pós-moderno passou a ser relacionado com o
alegórico, o apropriativo, a desconstrução e com a ruptura das fronteiras entre
as artes e as camadas da cultura superior-erudita, inferior-popular e de massa.
Já nos anos 90, a arte, por meio das tecnologias, passam a fragmentar e
multiplicar o corpo através de espaços drasticamente não perspectivados.
As artes do corpo biocibernético são
significadas como forma e material de criação e transformação por que o corpo
e, com ele, os equipamentos sensório – perceptivos, a mente, a consciência e a
sensibilidade do ser humano vem passando como fruto de suas simbioses com as
tecnologias. Arte do corpo remodelado, arte do corpo protético, arte do corpo
esquadrinhado, arte do corpo plugado, arte do corpo simulado, arte do corpo
digitalizado e arte do corpo molecular são exemplos de corpos biocibernéticos.
De fato, de algumas décadas para cá,
cada vez mais o humano passou a ser definido em relação aos sistemas
cibernéticos – computadores, organismos engenheirados biologicamente,
ecossistemas, sistemas espertos, robôs, androides e ciborgs – todos eles
certamente evocando formas perturbadoras de ambivalência. Portanto, seres
humanos e máquinas estão se aliando não apenas porque os seres humanos estão
convivendo, interagindo e se integrando às máquinas, mas muito mais porque
elas, as máquinas, estão ficando cada vez mais parecidas com os humanos.
Por esse motivo, das mudanças em
virtude das revoluções, em especial, a tecnológica é que se fala da morte da
arte, a arte depois da arte. A rigor, não é a morte da arte em si, mas de uma
nova conceituação, uma nova roupagem que se deu à arte, em virtude da revolução
digital. Nesse panorama, não apenas as artes, mas também a cultura em geral,
nas últimas décadas, estão passando por uma revolução tecnológica informacional.
Assim, a arte, através da sua linguagem, códigos, sinais etc faz parte da
cultura, que nos tempos atuais vive a diluição de fronteiras entre os seus
vários tipos. Nenhum tipo ou era cultural desapareceu, o que aconteceu foi que
houve um processo de hibridização.
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