A Pedagogia
da Alternância nasceu na França na década de 1930, em pleno período da Segunda
Guerra Mundial, e se fortaleceu como uma perspectiva de vida nova para os
camponeses da pequena Srignac – Peboudou, no Sudoeste da França. Espalhou-se
pelo mundo, chegando ao Brasil em finais da década de 1960 – em pleno Regime
Militar, sendo o primeiro país fora da Europa a implantar a Pedagogia da
Alternância, seguido quase simultaneamente pela Argentina.
Tal como no contexto Francês, a nova
pedagogia chegou com perspectivas de novos horizontes de vida para os
camponeses de Olivânia, localizado na zona rural do município de Anchieta, no
Espírito Santo. Sendo esta a primeira comunidade camponesa fora do território
europeu a sediar uma escola da alternância. O segundo lugar a receber a
Pedagogia da Alternância fora da Europa foi Moussy, na Província de Santa Fé,
na Argentina.
De acordo com o dicionário Luft
(1999), a alternância é o “ato ou efeito de alternar”. E, por sua vez, alternar
é “fazer repetir alternada e regularmente; revezar; intercalar; interpolar;
suceder ou aparecer intercaladamente”.
Sendo assim, ao analisar sua vida, o
passar dos dias, semanas, enfim, dos tempos; poderão se certificar que a sua
vida é feita de alternâncias. Pois existe a alternância entre o dia e a noite;
entre o espaço de trabalho e o espaço da casa; o dormir e o acordar; entre o
relacionamento no trabalho e o relacionamento na família; entre o aprender e o
aplicar; entre o cansaço e o descanso; entre a semana e o fim de semana; entre
o convívio profissional, o familiar e o social... Entre as estações do ano...
Portanto, a vida se faz de alternâncias entre as atividades, os lugares, a
convivência entre as pessoas e uma sequência de tempo.
A Pedagogia da Alternância consiste
em uma complexa pedagogia que tem a aprendizagem do estudante baseada na
alternância de espaços, relacionamentos, atividades e tempos, que não somente
ocorrem na escola, mas também na família, no meio geográfico e comunitário,
social e profissional, valorizando as raízes culturais locais, o conhecimento
dos pais e presentes no meio onde vivem; e fazendo do espaço e do tempo escolar
um processo de aprofundamento e enriquecimento desses saberes vindos da
realidade do aluno.
A Pedagogia da Alternância se faz
valer de um conjunto de estratégias, ações, de agentes e colaboradores, além de
um conjunto próprio de ferramentas pedagógicas, que permitem alcançar a
formação do estudante.
Essa modalidade de pedagogia se
consolidou como um modelo de formação que alterna momentos, espaços e
atividades no processo de ensino-aprendizagem. Este passa não mais ocorrer
somente em uma sala de aula, mas também ao lado externo das escolas. Ou seja,
nas atividades produtivas, enfim, em toda e qualquer atividade e experiência
que se insere o estudante e passa a ser considerada como valiosa na construção
da sua formação integral, profissional e permanente.
A dinâmica formativa da Alternância
trouxe novas perspectivas para os jovens a propor:
·
Uma formação em outra
dinâmica que não a convencional;
·
O diálogo e interação entre
as diferentes realidades e contextos da vida do estudante (familiar, social,
profissional);
·
Que o estudante seja o
responsável pela construção de sua própria história e condutor de sua formação;
·
Permitindo a este adquirir
conhecimentos voltados a atender as demandas de sua realidade e comunidade
concernente às questões profissionais, técnicas e inovação;
·
E despertando para a
habilidade e competência para a auto-formação e a formação permanente.
O
principal problema, dentre vários, que serviu como motivação para o surgimento
da Pedagogia da Alternância foi à questão da necessidade dos jovens continuarem
seus estudos e não existirem escolas na região de Serignac – Peboudou (Sudoeste
Francês) que ofertassem ensino para além das séries iniciais. A alternativa dos
pais franceses daquela época era remeter seus filhos para as cidades maiores,
de forma que muitas vezes a família ficava dividida, pois a mãe seguia com os
filhos e o pai ficava só na propriedade. Os jovens que iam à busca de escola,
passavam a ter saberes que em nada se aplicavam à necessidade da família e da
comunidade na atividade agrícola que desenvolvia. E o filho, formado em uma
profissão que não condizia com a atividade agrícola da família, era
condicionado a viver na cidade para poder trabalhar.
O padre francês Abbé Granerau juntamente
com as famílias rurais, após criação de sindicatos rurais e associações fundou
a instituição Maison Familiale Rurale que começou a funcionar em 1935 e vários
processos complexos foram se estabelecendo e formando essa pedagogia: seu funcionamento,
seus mecanismos, suas ferramentas pedagógicas e seus objetivos. Essa primeira
escola da Alternância teve seu funcionamento lá mesmo no salão paroquial.
Geralmente, a palavra professor
nessas escolas é substituída por monitor. A visão de um novo profissional da
educação, com novas habilidades e competências para além das exigidas pelas
escolas convencionais. No entanto, o educador de uma EFA deve ser uma pessoa
desprendida de um planejamento oficial, aberto para o diálogo com o aluno e a
família; da mesma forma, capaz de promover o diálogo entre os diferentes
saberes.
Hoje as escolas de Pedagogia da
Alternância estão presentes nos cinco continentes e em diversos países, em um
total de mais de mil e trezentas escolas. Segundo dados, em 2010 existiam 1330
EFAs em todo o mundo, assim distribuídos por continente: Europa- 523; África- 193; Ásia – 16; Oceania- 12; América- 593. Sendo
os países com o maior número de CEFFas / EFAs, no de 2010: França- 460; Brasil-
263; Argentina- 114; Guatemala- 104; Espanha- 55; Peru- 43.
Quando se trata das EFAs (Escolas
Famílias Agrícolas), estamos falando de Educação no Campo, que muitas vezes é
confundida com Educação Rural. Há uma grande diferença falar de Educação do
Campo e Educação Rural. A primeira consiste na educação articulada pelos
movimentos sociais do campo, como forma de se realmente estabelecer um projeto
ou uma política educacional que garanta as especificidades do campo e de sua
gente. A Educação Rural consiste em modelos educacionais propostos pelo poder público, descompromissado com os
interesses sociais dos trabalhadores rurais, suas perspectivas; podendo essa
ser um projeto voltado a estabelecer o modelo proposto por uma elite ou um
grupo social dominante.
Como dispositivos legais sobre a
educação no campo, temos os seguintes no decorrer de nossa história:
·
Em 1812 p PNE – Plano Nacional
de Educação reconheceu a necessidade de uma base de conhecimento a ser ofertado
a todos os estudantes e como ramo diferenciado a ser ofertado concomitantemente
aos comerciantes, artistas, agricultores e a outras respectivas formações
profissionais;
·
PNE de 1826 – Deixou como
legado a proposição de que a educação deveria valorizar o conhecimento sobre a
natureza e os saberes relacionados a produção de produtos naturais;
·
O Decreto nº 7.247 de 1979
instituiu a primeira experiência de ensino técnico, na Bahia, posteriormente
transformada na Escola de Agronomia do
Brasil;
·
LDB nº 4024 de 1961 - Artigo 105 pregava que os poderes públicos
instituirão e ampararão serviços e entidades que mantenham na zona rural escolas
capazes de favorecer as adaptação do homem ao meio e o estímulo de vocações
profissionais. Ao longo da década de 1960 ampliou-se a implantação de modelos
de escolas agrotécnicas, de cunho educacional tecnicista;
·
Decreto Lei nº 9.613 de
20/08/1946 – Lei Orgânica do Ensino Agrícola;
·
Constituição Federal de 1988
– Em seu Capítulo III, Art. 206 determina um pluralismo de concepções pedagógicas;
·
LDB nº9394/96 – Em seu Art.
28 apregoa a oferta de oferta de educação para a população da zona rural, a
educação deverá se adaptar às peculiaridades da população, da localidade e da
região;
·
Parecer CNE / CEB 36, de
04/12/2001 – legalizou o funcionamento das escolas do meio rural e representou
um marco inovador no que se refere à educação em zona rural;
·
Resolução CEB nº 01/2002 –
que estabeleceu as diretrizes Educacionais para a Educação Básica nas escolas
do campo;
·
Parecer CEB nº 01/2006 –
Recomenda a adoção da Pedagogia da Alternância nas escolas do campo.
A
Pedagogia da Alternância relaciona-se com o modelo teórico da Teoria Tripolar,
que apresenta três pólos formativos que seguem:
1-
Heteroformação
– é aquela que dá na interação de agentes sociais e profissionais articulando
ou colaborando para a aprendizagem do ser em análise: a escola, a família, os
parceiros e colaboradores dos CEFFAs/EFAs na formação do seu alunado;
2-
Ecoformação
– dá a partir do aluno com o meio ambiente;
3-
Autoformação
– consiste e culmina na capacidade do ser em realizar e conduzir o seu processo
de formação.
O
grande diferencial dos CEFFAs/EFAs em relação às escolas convencionais, é que
os primeiros nascem da participação e responsabilidade dos pais, diante e para
atender a realidade produtiva, social e cultural local, tendo como base o
conhecimento da família e da comunidade. Ou seja, se propõe ser um processo de
organização e transformações do local
onde a escola se instalou.
Os princípios de funcionamento das
EFAs são convencionados como os QUATRO PILARES DOS CEFFAs, e estão relacionados
com as finalidades da formação e dos meios formativos. Esses princípios
norteiam e organizam o funcionamento administrativo, financeiro de pedagógico
das escolas, influenciando na formação dos técnicos em Agropecuárias. São eles:
1-
Associação das famílias: local,
regional e nacional;
2-
A Pedagogia da Alternância;
3-
A formação profissional,
integral e humana do ser;
4-
O desenvolvimento
sustentável, ambientalmente correto e solidário do meio.
O
ponto mais importante para que ocorra todas as alternâncias, é a existência dos
momentos de aprendizagem dos alunos na escola e na família/comunidade.
Geralmente dá-se o nome da semana que o aluno está na escola de Sessão Escolar
e a sessão que está junto da família de Sessão Família. Essas sessões são de
uma semana ou 15 dias em cada lugar.
Vale refletir que a alternância entre a Sessão Família e a Sessão Escola é a
essência da Pedagogia da Alternância.
O currículo de uma EFA nasce de toda
reflexão presente no PPP, exprimindo em
componente curricular a formação desejada pelos pais, comunidade e professores.
O currículo escolar geralmente acontece de forma interdisciplinar entre
conteúdos técnicos e gerais e aponta para os mesmos perfis formativos: a
formação humana, integral e profissional.
As ferramentas e ações da Pedagogia
da Alternância são:
·
O
PLANO DE FORMAÇÃO – consiste em um grande
painel onde estão dispostos todos os processos formativos pelo qual passará o
jovem ao longo de um ano. Nele constam os temas geradores do Plano de Estudo,
as disciplinas do currículo / matriz curricular e todas as ações e estratégias
que serão desenvolvidas a partir dos temas do PE. O tema é o elemento chave do
Plano de Formação. O Plano de Formação deve representar a articulação entre
seis elementos básicos dos CEFFAs e da Pedagogia da Alternância: o conteúdo, o
aluno, o professor/monitor, a organização, a participação familiar e a
avaliação.
·
O
PLANO DE ESTUDO – é a ferramenta da
Pedagogia da Alternância que se estabelece a partir de uma pesquisa realizada
pelos alunos, durante a sessão família, a partir de temas definidos entre a
equipe e a CEFFA, os estudantes e a família, além de agentes formativos do meio
comunitário. É destinado à pesquisa e diagnóstico de temáticas pré-definidas
entre a equipe do CEFFA, os estudantes e a família, além de agentes formativos
do meio comunitário. O trabalho escolar sobre o Plano de Estudo parte da
lógica: ação – reflexão – aprofundamento – nova ação.
·
A
FOLHA DE OBSERVAÇÃO – consiste em uma
estratégia usada para complementar a pesquisa do tema do PE. Ela é usada quando
o professor deseja apurar melhor uma informação que não ficou clara durante a
pesquisa ou aprofundar alguma informação relevante referente ao tema.
·
O
CADERNO REALIDADE – funciona como um
sistema de porta folhas, onde os alunos vão registrando a sua história escolar.
Ou seja, em uma pasta de arquivo o aluno vai organizando os seus planos de
estudo e todos os outros trabalhos que desenvolve com o intuito de
diagnosticar, abordar, descrever, analisar, interrogar, compreender, aprofundar
sua realidade familiar, histórica, social, cultural e profissional.
·
ESTÁGIO
– geralmente a partir do 1º ano já inicia-se o estágio;
·
A
VISITA ÀS FAMÍLIAS – o desenvolvimento da
Pedagogia da Alternância requer um elo entre os alunos e o corpo docente da
escola, para que o processo de ensino se dê realmente em um contexto familiar.
Para isso, torna-se necessário que a escola e a família tenham um
relacionamento próximo.
·
A
TUTORIA –
é uma ferramenta de acompanhamento individualizado do aluno no sistema
de formação por alternância. Consiste numa tarefa do professor / monitor em
dedicar um tempo na sessão escola para cada aluno que ele é tutor, conversando
com o mesmo sobre o rendimento escolar, dificuldades na escola, projeto de
vida, definição do projeto profissional. Enfim, este professor desenvolve com o
aluno laços de amizade, passando a ser uma referência para o aluno no
relacionamento dom a escola.
·
CADERNO
DE ACOMPANHAMENTO – é a mais importante
ferramenta do tutor. Corresponde a uma caderneta devidamente preparada para o
fim que se destina: o aluno registrar cada momento seu na sessão escola e na
sessão família.
·
FICHA
INDIVIDUAL – constitui o documento em que o
monitor na sua função de tutor registra todas as questões relacionadas aos
estudantes em que ele é responsável pelo acompanhamento. Nele devem constar de
forma sintetizada as informações extraídas do Caderno de Acompanhamento,
referente à estadia do aluno nas sessões famílias, comprovando as atividades
daquele espaço, refletindo na sua aprendizagem em alternância.
·
O
INTERNATO E AS TAREFAS DO ESPAÇO ESCOLAR – é a
permanência e o alojamento do estudante no prédio escolar ao longo de toda
Sessão Escola. O aluno fica em internato ao longo da quinzena.
·
VISITAS
E VIAGENS DE ESTUDO – constituem de saídas
programadas e planejadas pelos professores, com o intuito de proporcionar aos
estudantes o aprofundamento dos temas e conteúdos trabalhados.
·
RELATÓRIOS
– devem ser sempre um processo corriqueiro na vida do estudante da Pedagogia da
Alternância. É uma estratégia de tomar nota de cada atividade que ele
participa.
·
O
PROJETO DE VIDA – é uma atividade
proposta aos alunos do nono ano do ensino fundamental e tem o propósito de fazer o jovem e a família
refletirem sobre os passos seguintes na vida e na formação do estudante.
·
PROJETO
PESSOAL PROFISSIONAL – é um elemento
pedagógico de culminância de formação pela Pedagogia da Alternância. Após ter
concluído o ensino médio e ter recebido várias instruções e orientações que
levaram o estudante na construção de seu saber, o projeto profissional se
estabelece como a continuidade do projeto de vida.
·
A
FORMAÇÃO DAS FAMÍLIAS – os pais e a família
como um todo exerce um papel fundamental na formação dos estudantes através da
Pedagogia da Alternância. Pois eles que permanecem com o estudante durante a
sessão família, acompanhando-os em suas atividades, inserindo-os no mundo do
trabalho da família ou comunidade e participando da vida escolar através da
associação. Mais do que isso, a família
é a base dos primeiros saberes dos seus filhos, antes mesmo destes irem para o
espaço escolar.
OBS:
Síntese do Livro da referência abaixo.
REFERÊNCIA:
FROSSARD,
Antonio Carlos. Conhecendo a Pedagogia
da Alternância: contextualização, questões teóricas e práticas. Nova
Friburgo: Editora Fross, 2018.
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