sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

CONHECENDO A PEDAGOGIA DA ALTERNÂNCIA: CONTEXTUALIZAÇÃO, QUESTÕES TEÓRICAS E PRÁTICAS


         A Pedagogia da Alternância nasceu na França na década de 1930, em pleno período da Segunda Guerra Mundial, e se fortaleceu como uma perspectiva de vida nova para os camponeses da pequena Srignac – Peboudou, no Sudoeste da França. Espalhou-se pelo mundo, chegando ao Brasil em finais da década de 1960 – em pleno Regime Militar, sendo o primeiro país fora da Europa a implantar a Pedagogia da Alternância, seguido quase simultaneamente pela Argentina.
            Tal como no contexto Francês, a nova pedagogia chegou com perspectivas de novos horizontes de vida para os camponeses de Olivânia, localizado na zona rural do município de Anchieta, no Espírito Santo. Sendo esta a primeira comunidade camponesa fora do território europeu a sediar uma escola da alternância. O segundo lugar a receber a Pedagogia da Alternância fora da Europa foi Moussy, na Província de Santa Fé, na Argentina.
            De acordo com o dicionário Luft (1999), a alternância é o “ato ou efeito de alternar”. E, por sua vez, alternar é “fazer repetir alternada e regularmente; revezar; intercalar; interpolar; suceder ou aparecer intercaladamente”.
            Sendo assim, ao analisar sua vida, o passar dos dias, semanas, enfim, dos tempos; poderão se certificar que a sua vida é feita de alternâncias. Pois existe a alternância entre o dia e a noite; entre o espaço de trabalho e o espaço da casa; o dormir e o acordar; entre o relacionamento no trabalho e o relacionamento na família; entre o aprender e o aplicar; entre o cansaço e o descanso; entre a semana e o fim de semana; entre o convívio profissional, o familiar e o social... Entre as estações do ano... Portanto, a vida se faz de alternâncias entre as atividades, os lugares, a convivência entre as pessoas e uma sequência de tempo.
            A Pedagogia da Alternância consiste em uma complexa pedagogia que tem a aprendizagem do estudante baseada na alternância de espaços, relacionamentos, atividades e tempos, que não somente ocorrem na escola, mas também na família, no meio geográfico e comunitário, social e profissional, valorizando as raízes culturais locais, o conhecimento dos pais e presentes no meio onde vivem; e fazendo do espaço e do tempo escolar um processo de aprofundamento e enriquecimento desses saberes vindos da realidade do aluno.
            A Pedagogia da Alternância se faz valer de um conjunto de estratégias, ações, de agentes e colaboradores, além de um conjunto próprio de ferramentas pedagógicas, que permitem alcançar a formação do estudante.
            Essa modalidade de pedagogia se consolidou como um modelo de formação que alterna momentos, espaços e atividades no processo de ensino-aprendizagem. Este passa não mais ocorrer somente em uma sala de aula, mas também ao lado externo das escolas. Ou seja, nas atividades produtivas, enfim, em toda e qualquer atividade e experiência que se insere o estudante e passa a ser considerada como valiosa na construção da sua formação integral, profissional e permanente.
            A dinâmica formativa da Alternância trouxe novas perspectivas para os jovens a propor:
·         Uma formação em outra dinâmica que não a convencional;
·         O diálogo e interação entre as diferentes realidades e contextos da vida do estudante (familiar, social, profissional);
·         Que o estudante seja o responsável pela construção de sua própria história e condutor de sua formação;
·         Permitindo a este adquirir conhecimentos voltados a atender as demandas de sua realidade e comunidade concernente às questões profissionais, técnicas e inovação;
·         E despertando para a habilidade e competência para a auto-formação e a formação permanente.       
O principal problema, dentre vários, que serviu como motivação para o surgimento da Pedagogia da Alternância foi à questão da necessidade dos jovens continuarem seus estudos e não existirem escolas na região de Serignac – Peboudou (Sudoeste Francês) que ofertassem ensino para além das séries iniciais. A alternativa dos pais franceses daquela época era remeter seus filhos para as cidades maiores, de forma que muitas vezes a família ficava dividida, pois a mãe seguia com os filhos e o pai ficava só na propriedade. Os jovens que iam à busca de escola, passavam a ter saberes que em nada se aplicavam à necessidade da família e da comunidade na atividade agrícola que desenvolvia. E o filho, formado em uma profissão que não condizia com a atividade agrícola da família, era condicionado a viver na cidade para poder trabalhar.
            O padre francês Abbé Granerau juntamente com as famílias rurais, após criação de sindicatos rurais e associações fundou a instituição Maison Familiale Rurale que começou a funcionar em 1935 e vários processos complexos foram se estabelecendo e formando essa pedagogia: seu funcionamento, seus mecanismos, suas ferramentas pedagógicas e seus objetivos. Essa primeira escola da Alternância teve seu funcionamento lá mesmo no salão paroquial.
            Geralmente, a palavra professor nessas escolas é substituída por monitor. A visão de um novo profissional da educação, com novas habilidades e competências para além das exigidas pelas escolas convencionais. No entanto, o educador de uma EFA deve ser uma pessoa desprendida de um planejamento oficial, aberto para o diálogo com o aluno e a família; da mesma forma, capaz de promover o diálogo entre os diferentes saberes.
            Hoje as escolas de Pedagogia da Alternância estão presentes nos cinco continentes e em diversos países, em um total de mais de mil e trezentas escolas. Segundo dados, em 2010 existiam 1330 EFAs em todo o mundo, assim distribuídos por continente: Europa- 523; África- 193; Ásia – 16; Oceania- 12; América- 593. Sendo os países com o maior número de CEFFas / EFAs, no de 2010: França- 460; Brasil- 263; Argentina- 114; Guatemala- 104; Espanha- 55; Peru- 43.
            Quando se trata das EFAs (Escolas Famílias Agrícolas), estamos falando de Educação no Campo, que muitas vezes é confundida com Educação Rural. Há uma grande diferença falar de Educação do Campo e Educação Rural. A primeira consiste na educação articulada pelos movimentos sociais do campo, como forma de se realmente estabelecer um projeto ou uma política educacional que garanta as especificidades do campo e de sua gente. A Educação Rural consiste em modelos educacionais            propostos pelo poder público, descompromissado com os interesses sociais dos trabalhadores rurais, suas perspectivas; podendo essa ser um projeto voltado a estabelecer o modelo proposto por uma elite ou um grupo social dominante.
            Como dispositivos legais sobre a educação no campo, temos os seguintes no decorrer de nossa história:
·         Em 1812 p PNE – Plano Nacional de Educação reconheceu a necessidade de uma base de conhecimento a ser ofertado a todos os estudantes e como ramo diferenciado a ser ofertado concomitantemente aos comerciantes, artistas, agricultores e a outras respectivas formações profissionais;
·         PNE de 1826 – Deixou como legado a proposição de que a educação deveria valorizar o conhecimento sobre a natureza e os saberes relacionados a produção de produtos naturais;
·         O Decreto nº 7.247 de 1979 instituiu a primeira experiência de ensino técnico, na Bahia, posteriormente transformada  na Escola de Agronomia do Brasil;
·         LDB nº 4024 de 1961 -  Artigo 105 pregava que os poderes públicos instituirão e ampararão serviços e entidades que mantenham na zona rural escolas capazes de favorecer as adaptação do homem ao meio e o estímulo de vocações profissionais. Ao longo da década de 1960 ampliou-se a implantação de modelos de escolas agrotécnicas, de cunho educacional tecnicista;
·         Decreto Lei nº 9.613 de 20/08/1946 – Lei Orgânica do Ensino Agrícola;
·         Constituição Federal de 1988 – Em seu Capítulo III, Art. 206 determina um pluralismo de concepções pedagógicas;
·         LDB nº9394/96 – Em seu Art. 28 apregoa a oferta de oferta de educação para a população da zona rural, a educação deverá se adaptar às peculiaridades da população, da localidade e da região;
·         Parecer CNE / CEB 36, de 04/12/2001 – legalizou o funcionamento das escolas do meio rural e representou um marco inovador no que se refere à educação em zona rural;
·         Resolução CEB nº 01/2002 – que estabeleceu as diretrizes Educacionais para a Educação Básica nas escolas do campo;
·         Parecer CEB nº 01/2006 – Recomenda a adoção da Pedagogia da Alternância nas escolas do campo.
A Pedagogia da Alternância relaciona-se com o modelo teórico da Teoria Tripolar, que apresenta três pólos formativos que seguem:
1-      Heteroformação – é aquela que dá na interação de agentes sociais e profissionais articulando ou colaborando para a aprendizagem do ser em análise: a escola, a família, os parceiros e colaboradores dos CEFFAs/EFAs na formação do seu alunado;
2-      Ecoformação – dá a partir do aluno com o meio ambiente;
3-      Autoformação – consiste e culmina na capacidade do ser em realizar e conduzir o seu processo de formação.
O grande diferencial dos CEFFAs/EFAs em relação às escolas convencionais, é que os primeiros nascem da participação e responsabilidade dos pais, diante e para atender a realidade produtiva, social e cultural local, tendo como base o conhecimento da família e da comunidade. Ou seja, se propõe ser um processo de organização  e transformações do local onde a escola se instalou.
            Os princípios de funcionamento das EFAs são convencionados como os QUATRO PILARES DOS CEFFAs, e estão relacionados com as finalidades da formação e dos meios formativos. Esses princípios norteiam e organizam o funcionamento administrativo, financeiro de pedagógico das escolas, influenciando na formação dos técnicos em Agropecuárias. São eles:
1-      Associação das famílias: local, regional e nacional;
2-      A Pedagogia da Alternância;
3-      A formação profissional, integral e humana do ser;
4-      O desenvolvimento sustentável, ambientalmente correto e solidário do meio.

O ponto mais importante para que ocorra todas as alternâncias, é a existência dos momentos de aprendizagem dos alunos na escola e na família/comunidade. Geralmente dá-se o nome da semana que o aluno está na escola de Sessão Escolar e a sessão que está junto da família de Sessão Família. Essas sessões são de uma semana ou 15 dias em cada  lugar. Vale refletir que a alternância entre a Sessão Família e a Sessão Escola é a essência da Pedagogia da Alternância.
            O currículo de uma EFA nasce de toda reflexão  presente no PPP, exprimindo em componente curricular a formação desejada pelos pais, comunidade e professores. O currículo escolar geralmente acontece de forma interdisciplinar entre conteúdos técnicos e gerais e aponta para os mesmos perfis formativos: a formação humana, integral e profissional.
            As ferramentas e ações da Pedagogia da Alternância são:

·         O PLANO DE FORMAÇÃO – consiste em um grande painel onde estão dispostos todos os processos formativos pelo qual passará o jovem ao longo de um ano. Nele constam os temas geradores do Plano de Estudo, as disciplinas do currículo / matriz curricular e todas as ações e estratégias que serão desenvolvidas a partir dos temas do PE. O tema é o elemento chave do Plano de Formação. O Plano de Formação deve representar a articulação entre seis elementos básicos dos CEFFAs e da Pedagogia da Alternância: o conteúdo, o aluno, o professor/monitor, a organização, a participação familiar e a avaliação.
·         O PLANO DE ESTUDO – é a ferramenta da Pedagogia da Alternância que se estabelece a partir de uma pesquisa realizada pelos alunos, durante a sessão família, a partir de temas definidos entre a equipe e a CEFFA, os estudantes e a família, além de agentes formativos do meio comunitário. É destinado à pesquisa e diagnóstico de temáticas pré-definidas entre a equipe do CEFFA, os estudantes e a família, além de agentes formativos do meio comunitário. O trabalho escolar sobre o Plano de Estudo parte da lógica: ação – reflexão – aprofundamento – nova ação.
·         A FOLHA DE OBSERVAÇÃO – consiste em uma estratégia usada para complementar a pesquisa do tema do PE. Ela é usada quando o professor deseja apurar melhor uma informação que não ficou clara durante a pesquisa ou aprofundar alguma informação relevante referente ao tema.
·         O CADERNO REALIDADE – funciona como um sistema de porta folhas, onde os alunos vão registrando a sua história escolar. Ou seja, em uma pasta de arquivo o aluno vai organizando os seus planos de estudo e todos os outros trabalhos que desenvolve com o intuito de diagnosticar, abordar, descrever, analisar, interrogar, compreender, aprofundar sua realidade familiar, histórica, social, cultural e profissional.
·         ESTÁGIO – geralmente a partir do 1º ano já inicia-se o estágio;
·         A VISITA ÀS FAMÍLIAS – o desenvolvimento da Pedagogia da Alternância requer um elo entre os alunos e o corpo docente da escola, para que o processo de ensino se dê realmente em um contexto familiar. Para isso, torna-se necessário que a escola e a família tenham um relacionamento próximo.
·         A TUTORIA –  é uma ferramenta de acompanhamento individualizado do aluno no sistema de formação por alternância. Consiste numa tarefa do professor / monitor em dedicar um tempo na sessão escola para cada aluno que ele é tutor, conversando com o mesmo sobre o rendimento escolar, dificuldades na escola, projeto de vida, definição do projeto profissional. Enfim, este professor desenvolve com o aluno laços de amizade, passando a ser uma referência para o aluno no relacionamento dom a escola.
·         CADERNO DE ACOMPANHAMENTO – é a mais importante ferramenta do tutor. Corresponde a uma caderneta devidamente preparada para o fim que se destina: o aluno registrar cada momento seu na sessão escola e na sessão família.
·         FICHA INDIVIDUAL – constitui o documento em que o monitor na sua função de tutor registra todas as questões relacionadas aos estudantes em que ele é responsável pelo acompanhamento. Nele devem constar de forma sintetizada as informações extraídas do Caderno de Acompanhamento, referente à estadia do aluno nas sessões famílias, comprovando as atividades daquele espaço, refletindo na sua aprendizagem em alternância.
·         O INTERNATO E AS TAREFAS DO ESPAÇO ESCOLAR – é a permanência e o alojamento do estudante no prédio escolar ao longo de toda Sessão Escola. O aluno fica em internato ao longo da quinzena.
·         VISITAS E VIAGENS DE ESTUDO – constituem de saídas programadas e planejadas pelos professores, com o intuito de proporcionar aos estudantes o aprofundamento dos temas e conteúdos trabalhados.
·         RELATÓRIOS – devem ser sempre um processo corriqueiro na vida do estudante da Pedagogia da Alternância. É uma estratégia de tomar nota de cada atividade que ele participa.
·         O PROJETO DE VIDA – é uma atividade proposta aos alunos do nono ano do ensino fundamental  e tem o propósito de fazer o jovem e a família refletirem sobre os passos seguintes na vida e na formação do estudante.
·         PROJETO PESSOAL PROFISSIONAL – é um elemento pedagógico de culminância de formação pela Pedagogia da Alternância. Após ter concluído o ensino médio e ter recebido várias instruções e orientações que levaram o estudante na construção de seu saber, o projeto profissional se estabelece como a continuidade do projeto de vida.

·         A FORMAÇÃO DAS FAMÍLIAS – os pais e a família como um todo exerce um papel fundamental na formação dos estudantes através da Pedagogia da Alternância. Pois eles que permanecem com o estudante durante a sessão família, acompanhando-os em suas atividades, inserindo-os no mundo do trabalho da família ou comunidade e participando da vida escolar através da associação. Mais do que isso, a  família é a base dos primeiros saberes dos seus filhos, antes mesmo destes irem para o espaço escolar.
OBS: Síntese do Livro da referência abaixo.

REFERÊNCIA:
FROSSARD, Antonio Carlos. Conhecendo a Pedagogia da Alternância: contextualização, questões teóricas e práticas. Nova Friburgo: Editora Fross, 2018.

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