O currículo escolar abrange
as experiências de aprendizagens implementadas pelas instituições escolares e
que deverão ser vivenciadas pelos estudantes. Nele, estão contidos os conteúdos
que deverão ser abordados no processo de ensino – aprendizagem e a metodologia
utilizada para os diferentes níveis de ensino.
Existem três tipos de currículo: CURRÍCULO FORMAL (também chamado de currículo prescrito, como
exemplo, temos a BNCC, os PCNs, as DCNS e no caso de Minas Gerais, temos o
Currículo Referência de MG em construção); CURRÍCULO
REAL (o currículo em ação na sala de aula, executado pelo professor): CURRÍCULO OCULTO (é constituído por todos
aqueles aspectos do ambiente escolar que sem fazer parte do currículo oficial,
explícito, contribui de forma implícita para aprendizagens mais relevantes).
Discutir currículo e definir uma proposta curricular
requer conhecimentos sobre as várias teorias educacionais que estão presentes
na literatura educacional e na prática escolar, pois uma teoria expressa uma
determinada forma de se conceber a realidade e nela intervir.
Segundo Silva (2019), teoria é uma representação, uma
imagem, um reflexo, um signo de realidade que – cronologicamente,
ontologicamente – a precede. A teoria não se limitaria, pois, a descobrir, a
descrever, a explicar a realidade: a teoria estaria irremediavelmente implicada
na sua produção. Ao descrever um objeto, a teoria, de certo modo, inventa-o. O objeto que a teoria
supostamente descreve é, efetivamente, um produto de sua criação.
A função da teoria curricular é compreender e descrever o
fenômeno da prática curricular. É através da teoria que teremos a compreensão
do objeto e intenções de determinado grupo social. Temos como teorias do
currículo:
·
TEORIAS
TRADICIONAIS: ela tem como objetivo principal preparar
para a aquisição de habilidades intelectuais através de práticas de
memorização. Esse tipo de currículo teve origem nos Estados Unidos e tem como
base a tendência conservadora, baseada nos princípios de Taylor, esse se
igualava ao sistema educacional ao modelo organizacional e administrativo das
empresas. As teorias tradicionais pretendem ser apenas isso: teorias neutras,
científicas, desinteressadas.
·
TEORIAS
CRÍTICAS: argumenta que
não existe uma teoria neutra, já que toda teoria está baseada nas relações de
poder. Isso está implícito nas disciplinas e conteúdos que reproduzem a
desigualdade social que fazem com que muito alunos saem da escola antes mesmo
de aprender as habilidades dominantes. Percebe o currículo como um campo que
prega a liberdade e um espaço cultural e social de lutas.
·
TEORIAS
PÓS-CRÍTICAS: o currículo é tido como algo que produz uma
relação de gêneros, pois predomina a cultura patriarcal. Essa teoria critica a
desvalorização do desenvolvimento cultural e histórico de alguns grupos étnicos
e os conceitos de modernidade, como a razão e a ciência. Outra perspectiva
desse currículo é a fundamentação no pós-estruturalismo que acredita que o
conhecimento é algo incerto e indeterminado. Questiona também o conceito de verdade,
já que leva em consideração o processo pelo qual algo se torna verdade.
As
teorias críticas e as pós-críticas argumentam que nenhuma teoria é neutra,
científica ou desinteressada, mas que está inevitavelmente, implicada em
relações de poder.
O quadro resume as grandes categorias de
teoria de acordo com os conceitos que elas, respectivamente, enfatizam.
TEORIAS TRADICIONAIS
|
TEORIAS CRÍTICAS
|
TEORIAS PÓS-CRÍTICAS
|
Ensino
Aprendizagem
Avaliação
Metodologia
Didática
Organização
Planejamento
Eficiência
Objetivos
|
Ideologia
Reprodução cultural e social
Poder
Classe social
Capitalismo
Relações sociais de produção
Conscientização
Emancipação e libertação
Currículo oculto
Resistência
|
Identidade, alteridade, diferença
Subjetividade
Significação e discurso
Saber-poder
Representação
Cultura
Gênero, raça, etnia, sexualidade
multiculturalismo
|
LDB – CURRÍCULO
Capítulo II – Educação Básica
Seção I – Disposições Gerais
Art. 26. Os currículos da educação
infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional
comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento
escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e
locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos.
§ 1o Os currículos a que se refere o caput
devem abranger, obrigatoriamente, o estudo da língua portuguesa e da
matemática, o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e
política, especialmente do Brasil.
§ 2o
O ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá
componente curricular obrigatório da educação básica.
§ 3o
A educação física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente
curricular obrigatório da educação básica, sendo sua prática facultativa ao
aluno:
I – que cumpra jornada de trabalho igual ou
superior a seis horas;
II –
maior de trinta anos de idade;
III – que estiver prestando serviço militar
inicial ou que, em situação similar, estiver obrigado à prática da educação
física;
IV –
amparado pelo Decreto-lei no 1.044, de 21 de outubro de 1969;
V –
(Vetado);
VI –
que tenha prole.
§ 4o O ensino da História do Brasil levará em
conta as contribuições das diferentes culturas e etnias para a formação do povo
brasileiro, especialmente das matrizes indígena, africana e europeia.
§ 5o
No currículo do ensino fundamental, a partir do sexto ano, será ofertada a
língua inglesa.
§ 6o As artes visuais, a dança, a música e o
teatro são as linguagens que constituirão o componente curricular de que trata
o § 2o deste artigo.
§ 7o A integralização curricular poderá
incluir, a critério dos sistemas de ensino, projetos e pesquisas envolvendo os
temas transversais de que trata o caput.
§ 8o
A exibição de filmes de produção nacional constituirá componente curricular
complementar integrado à proposta pedagógica da escola, sendo a sua exibição
obrigatória por, no mínimo, 2 (duas) horas mensais.
9o
Conteúdos relativos aos direitos humanos e à prevenção de todas as formas de
violência contra a criança e o adolescente serão incluídos, como temas
transversais, nos currículos escolares de que trata o caput deste artigo, tendo
como diretriz a Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança
e do Adolescente), observada a produção e distribuição de material didático
adequado.
§ 10. A inclusão de novos componentes
curriculares de caráter obrigatório na Base Nacional Comum Curricular dependerá
de aprovação do Conselho Nacional de Educação e de homologação pelo Ministro de
Estado da Educação.
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino
fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o
estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.
§ 1o
O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos
da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a
partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e
dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura
negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade
nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e
política, pertinentes à história do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à história e
cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no
âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística
e de literatura e história brasileiras.
Art.
27. Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as
seguintes diretrizes:
I – a difusão de valores fundamentais ao
interesse social, aos direitos e deveres dos cidadãos, de respeito ao bem comum
e à ordem democrática;
II –
consideração das condições de escolaridade dos alunos em cada estabelecimento;
III
– orientação para o trabalho;
IV –
promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não formais.
Art. 28. Na oferta de educação básica para a
população rural, os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à
sua adequação às peculiaridades da vida rural e de cada região, especialmente:
I –
conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e
interesses dos alunos da zona rural;
II –
organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar às fases
do ciclo agrícola e às condições climáticas;
III – adequação à natureza do trabalho na zona
rural.
Parágrafo
único. O fechamento de escolas do campo, indígenas e quilombolas será precedido
de manifestação do órgão normativo do respectivo sistema de ensino, que
considerará a justificativa apresentada pela Secretaria de Educação, a análise
do diagnóstico do impacto da ação e a manifestação da comunidade escolar.
PRÁTICAS E CONCEPÇÕES DO CURRÍCULO
INTEGRADO
O currículo integrado é uma denominação
que visa: contemplar uma visão global de conhecimento e promover a
interdisciplinaridade. Foi na década de 1980 – momento da redemocratização do
país que começa a se falar em projeto unitário. Formar cidadão de classe baixa
com conhecimentos científicos, buscando assim o horizonte da escola unitária.
Para Costa (2011), o currículo integrado é
uma possibilidade de inovar pedagogicamente, é uma forma de promover o diálogo
entre as diversas disciplinas tanto da formação geral como da formação
específica.
A proposta de integração dos anos 80 se
mantém em 1990 e vem com mais força nos anos 2000 trazendo a concepção de
currículo integrado. A superação da cisão trabalho, ciência e cultura, formação
geral / formação específica.
São quatro os sentidos da integração:
filosófico, epistemológico, político e pedagógico.
O termo currículo integrado visa a
educação integrada na perspectiva da politecnia, a compreensão do trabalho como
realização humana, no sentido ontológico e histórico. O trabalho inerente à
vida. Pensar o trabalho no sentido ontológico é perceber que todos na escola
tem direito de adquirir conhecimentos em todos os sentidos, sem a divisão do
trabalho manual/intelectual.
Existem duas perspectivas curriculares
FRAGMENTAÇÃO
|
INTEGRAÇÃO
|
·
Alto nível de classificação.
·
Isola os conteúdos das disciplinas.
·
Inibe a iniciativa e autonomia de alunos e
professores.
·
Rigidez prescritiva (atividades
curriculares pré-definidas).
·
Visão hierárquica do conhecimento: prioriza
os saberes científicos.
·
Despreza os saberes populares e a prática
dos alunos.
·
Formação para a alienação e desumanização
no campo do trabalho.
·
Organização curricular desarticula saberes
técnicos, científicos, éticos e políticos.
|
·
Menor nível de classificação.
·
Relaciona os conteúdos das disciplinas.
·
Promove a iniciativa e autonomia de alunos
e professores.
·
Flexibiliza as atividades curriculares.
·
Integra saberes populares e do cotidiano
dos alunos, todos os saberes são importantes.
·
Relaciona o âmbito da educação à prática
social concreta.
·
Formação omnilateral e politécnica.
·
Organização curricular baseada no trabalho
como princípio educativo.
|
Gramsci defendia a concepção da escola
politécnica ou unitária. É uma escola única, inicial de cultura geral. É única,
porque é humanista, ela trata além dos conhecimentos técnicos, os conhecimentos
humanos, ou seja, a formação humana dos sujeitos. Ela equilibra equanicamente o
desenvolvimento, a capacidade de trabalhar manualmente com o trabalho
intelectual. Para Gramsci não existia trabalho intelectual separado de trabalho
manual. Aquele ser humano que trabalha na oficina, ele também pensa, ele
articula conhecimentos que desenvolvem a sua capacidade intelectual.
Nesse sentido, na escola politécnica ou
unitária, não se restringem os limites da educação escolar. Não bastam os
ensinamentos escolares, estes devem ser estudados na vida cultural e social
daquela comunidade, daquele sujeito. Portanto, ao tomar o trabalho como
princípio educativo, o professor busca articular teoria e prática, não há
separação entre elas. Ele nega também a separação entre cursos teóricos e
cursos práticos, entre ensino propedêutico e ensino profissionalizante.
A organização curricular, na perspectiva
do currículo integrado, está assentada sobre três eixos epistemológicos:
·
CIÊNCIA: que trabalha conhecimentos
científicos;
·
CULTURA: que traz o contexto social e toda a
sua problemática;
·
TRABALHO COMO PRINCÍPIO EDUCATIVO.
Por
que trabalho como princípio educativo? No sentido ontológico é compreendido
como práxis humana e a forma pela qual o homem produz sua própria existência na
relação com a natureza e com os outros homens.
Logo,
o princípio do trabalho é um processo formativo que vai proporcionar ao
estudante a compreensão da historicidade, da produção científica e tecnológica
dos conhecimentos desenvolvidos e apropriados socialmente, para a transformação
das condições naturais da vida, na qual ele amplia as capacidades e as
potencialidades dos sentidos humanos.
Quando
se toma o trabalho como princípio educativo, não há como se apartar da realidade
concreta. Os conhecimentos científicos são produzidos junto com os
conhecimentos que construíram toda aquela cultura, que permeiam toda aquela
cultura e discutem as relações no mundo
do trabalho vivenciado por aquele grupo de estudantes.
No
currículo integrado, os conhecimentos científicos e específicos integram, um
conceito específico é abordado de forma técnica e instrumental, mas ele visão a
compreensão da construção histórica cultural do processo desenvolvido pela
ciência e os fins produtivos daquele conhecimento.
Portanto,
a construção do currículo integrado requer a compreensão de dois conceitos
importantes, que é a interdisciplinaridade e a transversalidade.
A
interdisciplinaridade apresenta-se contra o saber fragmentado, pulverizado numa
multiplicidade crescente de especificidades, em que cada um se fecha, com que
para fugir ao verdadeiro conhecimento que é global. Ele não é só conhecimento
de português, não é só conhecimento de matemática, nem só de física, nem só de
sociologia, ele é global porque envolve todos esses campos. O tema transversal
relaciona-se os conteúdos que atravessam todas as disciplinas.
Costa
(2011) conclui que currículos integrados demandam mais do que a oferta
simultânea de conteúdos por disciplinas diferentes, mais do que oferta
complementar de conteúdos por disciplinas, a construção de uma ação didática
unitária, o trabalho centrado nos nexos que existem entre os conhecimentos,
atitudes de abertura e convergência, criatividade e capacidade de inovação.
REFERÊNCIAS:
COSTA, Maria Adélia da. Currículo Integrado: concepções,
perspectivas e experiências. Belo Horizonte: CEFET – MG, 2011.
LDB – Leis de Diretrizes e
Bases. Lei nº 9.394. 1996. Disponível em: Portal do MEC. Acesso
em janeiro de 2020.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de Identidade: uma
introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
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